Publicado por: MissDemoiselle | Novembro 23, 2009

O Solitário e a Bengala

A bengala

ELE PARECIA MAIS um objeto. O enfeite da mesa, para ser mais razoável. Imóvel, alheio, estatuado. Parecia também não se importar com os demais sentados em sua mesa porque não lhe davam nem um pouco de confiança, afinal. Ele gostava e, também era forçado a permanecer em seu mundo individual, no mundo que só lhe cabia. Ficar ali com sua bengala e uma bebida gelada; era o que lhe acompanhavam enquanto sua companheira tagarelava com a amiga. Ele permanecia naquela inércia imposta enquanto um mundo interessante vivia ao seu redor e girava a todo instante. Ele parecia não ver. Era até um incômodo a maneira como se deixava ser só. Ser solitário ali, dentre tanta gente com alguma graça inerente. Irritante até a forma como deixara ser colocado em um mundo insatisfeito ao qual se adaptara e a solidão já lhe era companhia. Não mais amarga, claro que não. Era uma companhia que lhe trazia abrigo enquanto ele não agüentava mais ser só ouvidos, ouvidos e apenas ouvidos. Da tagarelice. Uma bengala e a bebida. Acessórios tão frios que poderiam representar mais do que objetos, porque na história, o objeto era ele. Um apoio e um mergulho e, a tentativa de se arriscar em algo menor que ele ou mais lento do que seus pensamentos. Em algo que fosse mais devagar do que aqueles minutos que corriam lentos, tartarugados, eternos. O viver como companhia estática. Ele transferia isso para a sua bengala que já tornara um apoio. E não é que precisasse dela, mas a solidão o fez envelhecer, corcundar. Além de que não há quem beba gelada em uma cafeteria, se não fosse apenas uma desculpa para se sentar ali.

E, permanecia ali, tão parado; tão chato naquele silêncio. E a mulher continuava a tagarelar e ele começou a virar um coitado. De tão parado, de tão apoiado na bengala, um coitado parado e solitário. Aquela lata vazia, o copo suado e ele jazia inerte, pensativo. Numa facilidade dantesca de, visivelmente, se transportar e, de tão insatisfeito, alcançar um nirvana utópico, mas que era tão real naquele momento que… contagiava. Ele bem que podia quebrar aquele silêncio e virar a mesa. Quebrar os copos, sabe. Tapar a boca da companheira, dizer verdades para a amiga da tal, virar as costas e ir-se embora mesmo. Daquele jeito bem de filme, onde se surta e vai atrás do que realmente se quer. Ou, pelo menos, impor seu papel de homem, de parte do casal, e fazer aquelas duas se divorciarem, pararem de amar conversar, de se amar, e amá-lo um pouquinho que fosse. Daí ele seria um mendigo, mas pelo menos, seria um pouco menos quedo.

Como se gozasse do desconforto de quem o observava,  num instante, sem muita pressa, rasgou o tumulto, quebrou o silêncio, levantou os braços e pediu mais uma gelada. Só que agora, estupidamente gelada. E, retornou ao seu ponto inicial, de onde nunca saíra. Continuou naquela insatisfação consentida, naquele viver que mais parecia um fechar os olhos. Continuou inerte e sua bengala mais viva do que ele.

E ninguém o percebeu.

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“Porque, para morrer, basta estar vivo (…)”
Ou não…

Publicado por: MissDemoiselle | Novembro 8, 2009

Do alto, para João.

[Do alto, Miss

... para entender, João]


resposta a [Missivas de João]


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Meu estimado João Romova,



Dizem que quando se vê as coisas do alto, se vê melhor. Subi ao teto e sentei-me; eu e a xícara de chocolate, para escrever-lhe. Assim enxergo melhor aquilo que quero dizer.


No mínimo fascinante foi o encontro à quatro. Meia-luz, bebidas, sons. Cada um com seu material; flores nas mãos da menina, poesia quente do cantor, canetas vermelhas berrantes – berrantes do menor – lápis na mão de você. Uma dança, por assim dizer, com passos sem definição, mas com encaixes cheios de uaus.


Devo dizer que a carta que me enviaste fez a minha alma poeta descobrir que canta. A menina além das asas, agora quer voar e descobrir essa varanda que declamaste. Quer entender a poesia de namorar estrelas, de passear no céu, de vestir o manto. Além do alto, quer voar e catar as flores que nascem no topo das copas para evitar que elas se sequem. Ah, João, podes ver o que fizeste (…) ?


João, João… você é como uma xícara de café. Sem almíscar, canela, ou chocolate de menta. É puro café. João é sentar-se na varanda, é brisa, é desespero, é trago, é calmante. João é conforto. Posso assim dizer que café é poesia, pois João de todo é manso, acolhedor, suspenso. Então é isso. Subi no teto para me sentir como João me faz. Suspensa em suas linhas e navegante em seus pensamentos.


Cansei de sentar pois não vi muita coisa de diferente daqui de cima. Deitada, posso ver o céu e, então, resolver voar para mais alto. Fico imaginando seus dias de solidão. Seu olhar perdido na janela durante a madrugada fria e o silêncio da noite te recepcionando. Imagino quando reclina em sua poltrona, retira os óculos, esfrega os olhos e tapa os ouvidos como se quisesse silenciar um pouco aquela poesia rabugenta que lhe fala aos ouvidos todo o tempo. E sente que precisa de café.


Um gole. E a poesia cala. Restando apenas o que é João. João é a mistura de todas as cores e a ausência de todas elas. É o preto no branco. O veloz e a suma. A palavra e o silêncio. João abraça. É gentileza, e afeto. É poeta em essência, é essência de sua própria poesia. João é café. Puro café,  sem amêndoas. João é João por si só, por saber ser.


Parar para escrever é sempre um bom começo. Parar para reler. Parar para ver. Para entender. Sentir. Para ver, João (…).


Enfim, Maria termina o seu outono. Toma a flor João, que é chegada a Primavera.



miss demoiselle

Publicado por: MissDemoiselle | Setembro 16, 2009

Os gritos de Marília

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Marília desenha os traços dos que a traçam. Dos que colocam uma perna para ela cair. Quer silenciar a voz dos que falam. Dos que gritam que se cansaram. Marília anda e anda muito. Anda até não poder mais. Anda e escuta a música que lhe fala aos ouvidos. Um mistério isso é (…) o fato de que o passado fala a Marília. De que o passado é tão alto quanto aquela coisa que se desfazia de si. No passado. Ele é grande e irrepreensível. O passado adora trair – atrair; fazer cair, Marília. Ele abre os buracos. Ele se ri. Enquanto ela aguenta tamanha safadeza, tamanho escárnio doentio, ele canta. Canta aos ventos, grita e desafina. Desafina tal qual o seu pobre lamentar que se arranha sem entender, que se cansa buscando o porquê, que acentua, que pontua, que não diz o quê. Que busca o quê. Que fica a mercê dos gigantes que, nessa hora, a invadem o pensamento e a amedrontam. Assaltam a sua paz, a dizem menos. Dizem-na durezas, jogam em sua cara.

É claro que se rende, e talvez sempre será rendida. Mas, tenta buscar antes que se canse. Tenta não mostrar que cansou (…) eles se cansaram. Depois de se cansarem, irão odiar. Como todo mal precede um mal pior. É assim. Marília até pinta os lábios e a cara. Mas, não adianta. Não adiante, um a desmascara. Não adianta. Adiante, um a faz tropeçar. Segue assim, Marília, tentando falar, tentando engolir. Seguem assim, sem querer entender, só a proferir seus gritos contra ela. Só a dizer o tamanho que são (…) esses gigantes que a querem fazer cair.

Marília coça as orelhas e tenta fazer o avesso da trama. Tenta se esconder. E a água precisaria estar mais gelada, e a água não levaria embora; não demora e já está a enlouquecer tentando responder o que esta triste canção a pergunta; a insulta. Perturba a tristeza do vento, o peso que esse momento deixa sobre Marília. Até tentou fazer com que o vento voltasse para sua habitação, mas ele ama por demais aquilo que o distrai – ama a sua impaciência em abanar o seu pescoço.

É claro que não será assim sempre. Que um dia o vento se umidificará e o lamento não mais agridirá o seu coração. Que um dia o pranto se converterá e que as pernas dos que antes se prontificaram em ser o seu tropeço, um dia serão as suas pontes. Que um dia as adversidades, de tão contrárias, a guiarão para o que Marília chama de certo. De peculiar. Para aquilo que um dia Marília sonhou ter. Um tesouro.

Publicado por: MissDemoiselle | Junho 29, 2009

Memórias

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Ao meu belo eterno.

Amélie falava dele como se ainda estivesse vivo. Mantinha no olhar aquele brilho da época em que ainda sorriam juntos. Mantinha respirando a alma que virava criança perto dele. Cultivava ao longo dos anos aquela sanidade tênue, tão fina quanto um fio de óleo sobre o mar, e continuava viva. Mas, dentro de si, sua cabeça mantinha um coração distante. Um coração triste que chorava as lembranças e revivia os sons, as cores, os cheiros e os sussurros. E, ela revivia mantendo-se viva porque acreditava ter tempo de partida e tempo de chegada. E tempo de chegar a partida. E ir para sempre. Quando questionada sobre seu relacionamento, fitou o horizonte e sorriu de leve como se contemplasse um cenário próprio, só dela. Deles.  Sorriu leve e disse que não tinham um relacionamento, tinham uma vida, de sorrisos, de discussões, de pequenos, de grandes, de prazeres. Uma vida inteira. Fios e fios de cabelo varridos pela vassoura gasta detrás da porta. Litros de expectativas, explosões de beijos, estômagos gelados. Uma vida inteira dum eterno primeiro encontro. Disse que não sofria ao lembrar-se dele, mas viver sem ele era esmagador, pois ninguém a conhecera tão bem e nunca haviam trazido tanta vida  como aquele pedaço de si, como aquela metade tão bonita que conhecera comprando frutas. “Amá-lo era incondicional, era impossível rejeitar amor a quem me trouxe tanta vida. Era impossível pedir que fosse diferente, que fosse um amor comum que os outros tinham entre si; não tinha como viver um amor de cobranças, de indiferenças; um amor de maus tratos”.  Amar aquele pedaço era o prazer de sua alma. Enquanto os homens invadem tantas moças e as fazem mulheres, ele ao contrário, a “ fazia menina” todos os dias, afirmava. Extraíra dela a melhor pessoa que era, a criança desesperada por colo, a carinhosa menina do interior, ela a fazia menina. Ele não a invadia, e nunca a sabotara, ainda que muitos queriam fazê-la acreditar que sim.  “Poucos passam pela vida e encontram um amor verdadeiro, como o que eu encontrei”, disse ela, com os olhos marejados de uma lágrima doce, que lhe formava um véu por sobre os olhos amarronzados; e lhe isso caía tão bem.  Enquanto falava, suas mãos estavam fechadas como se alguém as segurasse e entrelaçasse seus dedos nos dela, mas não havia outra mão ali, então entendi que eles costumavam se dar as mãos assim, cúmplices, um. “Não tínhamos um lugar preferido, um restaurante, um tipo de comida. Não tínhamos uma música, tampouco tínhamos programação”, soltando os imaginários dedos entrelaçados de sua fina e trêmula mão, apoiou o queixo com uma das mãos e deu de ombros completando, “todos os lugares eram nossos, todas as músicas e todas as comidas. Nada programávamos. Não tínhamos frescuras, tampouco futilidades. Vivíamos. Éramos a melhor dupla, a melhor companhia, e qualquer lugar se tornava nosso. Éramos livres”. Recostou-se na cadeira, olhou o retrato em cima do piano antigo e sorriu largo deixando mostrar suas covinhas quase imperceptíveis naquele rosto tão enrugado. Ficou par de minutos a observar aquele retrato amarelado, de um abraço tão laço. Era um abraço mudo que tanto gritava. Um abraço que gritava proteção e carinho, e gritava como eram livres. Um abraço que produzia dois sorrisos satisfeitos e, pelas covinhas da moça no retrato percebi que eram os dois, há muito tempo. Ela parecia estar mergulhada naquele dia que a foto congelou e voltou-se a mim dizendo: “não tínhamos noção de nós dois. nós éramos livres, verdadeiramente. nunca sentamos para dizer um ao outro: ‘como somos livres!’, não fazíamos de propósito, simplesmente éramos assim”, devagar continuou, “ele me amava muito puramente, de um modo só dele (…) ele me amava em silêncio, mas seus olhos gritavam tanto e quase choravam o amor que tinha por mim. A vida terminou sem ele. E eu, que sempre pedi que não se demorasse quando ia comprar algo. Eu que sempre odiei me despedir dele não sabia que era a última vez que veria aquele rosto grande e aqueles olhos que gritavam de amor por mim. Eu que sempre fui dramática, tão intensa, deixei a minha metade com ele. A gente já riu muito dessa vida, já ri muito com ele, daquela cara engraçada que sempre fazia. Ele fez um pacto com Deus e, conseguiu o meu manual”, disse em tom de brincadeira, quase como um suspiro, “ele sabia tudo o que eu precisava, ele se encaixava em mim, e era fácil… não driblávamos, não ensaiávamos e nem forçávamos; a gente simplesmente era feliz e completo e não sabia por quê. Era simples ser feliz com ele. Tão simples”.   Falando isso, recostou a cabeça branca na poltrona macia e cerrou os olhos suaves, pintando um sorriso tranqüilo nos lábios. Cerrara os olhos para mim, para o mundo teatralmente programado, ao qual ela nunca se adaptara, e agora Amélie reencontrara aquele que a fazia menina. Ela o reencontrara. Feliz.

miss demoiselle

Publicado por: MissDemoiselle | Junho 22, 2009

Sua Janela Quente

[Por favor, aperte o play]

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Eu estava em frente a sua janela e parecia um bêbado tolo segurando aquele telefone como se fosse um pedaço dela. Estava morrendo de medo de que ela se desfizesse para sempre, assim que desligou o telefone na minha cara. Medo de que ela se desfizesse para sempre como o efeito daquele álcool no meu sangue. Segurei o aparelho nas mãos o mais forte que pude para que ela não se fosse. E, depois, eu o quebrei como se ela pudesse ver o que fiz e, sentir a dor do aparelho desfigurado na minha frente. Queria que fosse ela, queria desfigurá-la para sempre, queria amá-la, possuí-la. Queria matá-la. Eu cheguei a lhe dizer isso e, talvez tenha sido por isso e, pelo ódio acumulado por mim nesses anos, que a tenha feito desligar na minha cara. É isso que odeio nela, seu senso de humor fraco, pobre. E, também odeio o fato de que ela nunca me amou como eu a amo. Eu queria sacudi-la e fazê-la entender o meu desequilíbrio, mas ela não compreendia. Vivia tentando se entender, se escutar, se isolar, se comunicar e me deixar de lado, como se sua vida fosse a peça principal do teatro e eu um figurante passageiro e bêbado. Eu queria beber vinho em seus lábios rubros e beijar seus olhos pretos de lápis borrado. Eu queria aquele olhar esnobe que possuía quando fumava seu cigarro e me olhava por cima, com ar de nobreza. Queria envolver sua cintura e mergulhar aquele corpo macio no meu.  Eu queria estar tonto ao lado dela, mas agora só me restava quebrar o telefone e ficar sem notícias. Eu nunca entendi sua necessidade de vários amores, assim como ela nunca entendera a minha obsessão. Eu estava viciado em observar sua janela e ficar horas parado congelando no frio apenas para ver sua sombra no quarto. Às vezes eu via um par de sombras e tinha medo de que fosse verdade, então eu bebia mais e fingia para mim mesmo que eram os meus turvos olhos embriagados que me vaziam ver assim. A minha santa deusa, o meu anjo assexuado, o cerne do meu desejo, da janela me olhava e desligava a luz. Me deixava pobre, me deixava nu.  Tinha prazer em me fazer coitado, em me fazer amante de longe, em me provocar, em me esquecer. E eu, um louco apaixonado, um triste abandonado, gritava a todo pulmão e dizia que a amava. Eu estava sóbrio e estava bêbado. O frio cada vez mais dolorido. Ela dizia que meu amor era demais e que ela não o merecia. Mentira. Isso era a desculpa que ela usava para alimentar seu vício pela liberdade e seu pouco caso com o amor. E dizia que eu bebia demais. Desculpa. Ela era mestre em inventar motivos de não me amar, mas eu não podia arrancar sua alma de meretriz e as doses de álcool que me deixavam insuportável. Ela era assim e nada a faria mudar. Nem o meu amor. Eu a amava embevecidamente. Da rua, como de costume, ficava a observar. E, a ouvir o som da triste melodia francesa que saia pela madrugada de sua janela. Quantas vezes eu já beijei aquela boca debaixo daquele som, quantas vezes a amei em francês… Minha dor era tão triste quanto aquela voz musicada, tão sofrida quanto aquela letra. Aquela rua tão triste e tão cinza e aquele quarto lá em cima, tão quente, tão meu, tão ontem. O meu amor por ela dói e a falta não me conforta;  a bebida só me esquenta enquanto passo as noites a observar e virou a minha doença assim como os seus amantes. Ela não sabia se prender e jamais seria só minha. E eu adormeci naquela calçada em frente a sua janela quente. Abraçado a uma garrafa de pinot noir, caído, beijando o chão, e adormecido pelo efeito do vinho. Escutei um chocalho de longe e reconheci sua tornozeleira cigana naqueles pés que tanto beijei. Ela se aproximou e fiz-me de desfalecido. Ela se abaixou e, jogando algumas moedas no chão, sussurrou: “só tenho migalhas, meu senhor”. E saiu a andar, chacoalhando aquele pé pintado de vermelho e aquela cintura que delineava a minha paixão. E eu sabia que era verdade. Que dela só viriam pedaços. Pedaços de outros amores e pedaços de amor por mim.

miss demoiselle

 

 

 

Música: Lucienne Boyer em Parlez-moi d’Amour

Publicado por: MissDemoiselle | Junho 22, 2009

Tolas Idéias Tolas

Só vou dormir quando estes versos gentilmente sairem de mim. Só vou repousar a minha cabeça quando eu deixar de dormir em espinhos. Só vou voltar a respirar quando a minha bomba de oxigênio acabar. Instigam-me as idéias soltas e me perturbam com suas risadinhas sarcásticas como se fossem a coisa mais importante do mundo . Voem, irônicas idéias! Palavrinhas sonsas que ficam a zumbizar o meu ouvido! Fui sabotado pelo meu cérebro que só pensa em pensar e se esquece de descansar, de voar, de ser livre. Acorrenta-me as palavrinhas que sapateiam em meu apartamento enqanto deito minha cabeça, perturbam-me as letrinhas soltas da minha sopa malfeita. Elas fazem festa no andar de cima, riem soltas da minha confusão, gargalham aos quatro ventos da minha falta de direção. Me deixem livre, me deixem atrasada, me deixem a pé. Elas, ingratas que são, querem traduzir-me, falar por mim, me sugar. Eu já disse que basta, eu já coloquei limite. Elas não entendem, elas não escutam. Só querem falar, me roubar a liberdade, me roupar a paz, me roubar a criação. Elas gastam minha energia, porque eu queria fazer tudo, mas elas querem mais.  Ela não me deixam comer bolo de chocolate, nem ouvir música. Porque elas ressoam no meu único canal auditivo de uma só vez. Egoístas. Falam sem parar do que sentem, de como sentem, de como queriam que tudo fosse. Eu até fiz um trato. Que me deixassem em paz, caso eu as denunciasse. E fizemos esse acordo, o fechamos. Cá estou eu, achando que sou Drummond. Mas, não é nada disso meu velho gauche, não é nada disso. Eu só quero ficar livre e aprisionar as idéias matracas nesse pequeno texto sem sentido para que elas se perpetuem e morram aos meus ouvidos. Como morreu feliz, meu velho gauche, sem dar ouvidos a elas…Só boca. 

miss demoiselle

Publicado por: MissDemoiselle | Abril 3, 2009

Doce de côco

O amor quebra estruturas. Rompe defesas.

Te pega desprevinido.

Tanto, que tolera suas chatices.

Mas, você também fica menos chato.

[Só pra quem você ama]

Porque, se pudesse, 

Faria o mundo à sua volta desaparecer.

Um ‘não perturbe’ pendurado na porta. 

Um amor suficiente.

Moreno.

miss-demoiselle

Publicado por: MissDemoiselle | Março 29, 2009

Caligrafia a Duas Mãos

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Duas colheres de pó, açúcar e água fervente. Ali, em frente a um coador de pano e o revigorante cheiro de café, aspirei aquele aroma e o senti entrando e se abrigando em mim, levando embora todos aqueles sentimentos de um dia ruim, deixando apenas seu gosto forte, marrom. Eu o queria armazenar para sempre, porque ali parecia estar tudo o que eu precisava naquele momento. Nem tudo. Na realidade o café me confortaria pelas horas à frente que prometiam passar de forma silenciosa.  Apenas eu e eu, naquela varandinha aconchegante, mas repleta de histórias. Sentada, respirando o universo que construí ao meu redor eu vejo marcas, tintas, madeira, flores e tecidos. E não havia como negar, com um pequeno gole e um sorriso no canto da boca era inevitável perceber como aquela varanda estava repleta de mim. Repleta dos meus ais e dos meus prazeres colecionados. E aquela brisa? Parecia querer dizer algo ao trazer o perfume dos jasmins presos às treliças. Foi assim que me lembrei, de um modo quase secreto, e leviano até, daquela música que me trouxe as memórias mais confusas e alucinantes. Memórias de um proibido esquecer. De um proibido querer. Eu podia ver e sentir aquela cena novamente como se tivesse acontecido ontem, quando sentada naquela campina de grama baixa – e verde brilhante – deixei o tempo acolher meus pensamentos. Deixei aquele cenário ditar o meu futuro e foi, então, que me vi. Em um flashback, um momento sóbrio. Sou artesã do que vivo, pontos e laços, eu talho o meu viver. Lixas ou pincéis, eu decoro meus momentos. E hoje, um dia solitariamente agradável, era dia para ter em meus olhos, com franqueza e gratidão, aquilo que se tornara a caligrafia de minhas mãos.

 

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João Romova e Miss Demoiselle tem idades completamente diferentes e, como não bastasse, estilos também. Mas num dia, desses comuns demais para qualquer um que ouse escrever, resolveram juntar suas letras. Enquanto um trocava as vírgulas, outro acentuava, um cortava os t’s, outro coloca os pingos nos i’s. Nessa história de trocarem vogais e consoantes, brincando de criarem novas palavras, deram-se a si mesmos  o que tinham, suas palavras.  
E assim nasceu um texto.
 

 

 

Publicado por: MissDemoiselle | Fevereiro 12, 2009

Sobre o tempo e papéis.

Da minha mesa, 12 de fevereiro de 2009,

quinta-feira de chuva.

ajuntei uns papeizinhos picados em cima de minha mesa e ali escrevo para mim “coisas” que me vêm à cabeça, como por exemplo, aquelas frases boas de se começar um  texto. No momento, eles me fazem mais companhia do que os livros, uma vez que estes andam me dando muito trabalho de ter de sair do meu plano e entrar no mundo fantasia. Não sei, é trabalhoso e não consigo fazer isso no momento. Afinal de contas estou num momento meio egoísta, onde só tomo chocolate gelado e cereais (soube que dão energia, talvez seja isso). Estou gostando dos papeizinhos, sabe?  Eles são muito sinceros, são no formato exato daquele momento. É como uma fotografia daqueles segundos rápidos que seguram aquelas frases que passam por minha mente e depois somem. O bom é que agora não somem mais. Afinal, eu as capturo e ficam presas para sempre. Uma ou outra eu tenho soltado à liberdade,  mas percebi que – uma vez capturadas – elas nunca mais voltam ao plano do pensamento. Criam vida.

já estava na hora de fazer algo assim por mim. estava achando aquele papo de quilômetros de página um tanto chato. Se bem que minha mesa está chata também. Pra você ver, tenho um vaso de flores rosa-choque, uma caneca, papéis e lápis soltos. Um tanto antipática, não acha? Agora os papeizinhos deram um ar mais solto à ela. Fico pensando no povo americano, e em como eles devem estar se sentido mais leves com o novo presidente. É assim que eu me sinto. Livre.

em contrapartida, acho que ando muito presa ao tempo. Ele não me respeita mais. Anda e tiquetaqueia como se fosse dono de si. Ele não me espera. Ele esfria o meu café e faz a lenha da lareira ficar preta. Isso porque nem citei as marcas de expressão que já noto quando sorrio – elas demoram a desaparecer. Ele só sabe andar para frente e fico com pena, porque é tão bom a gente perceber que está na direção errada, que se enganou, e voltar atrás para corrigir. É tão bom não ser tão duro na queda, ser mais mole, menos rígido, menos endurecido. Mas, ele não liga pra o que eu digo. Ele continua andando naquele ritmo tenebroso que, quando tudo silencia, ele se faz notável.

agora mesmo a chuva lá de fora tenta me lembrar das coisas boas. tenho orgulho, sabe, da minha mesinha antipática. Ela me cobra muito, assim como o tempo, mas me fazem companhia também, não posso negar. Pelo menos ela carrega os meus papéis e uns pensamentos bobos que só. Mas, que foram tão divertidos de pensar e arriscar escrever. O baú também me olha toda noite, meio desconfiado, meio com desejo de ser aberto. Mas, sobre ele eu escrevo na próxima. Não ando querendo mexer com isso agora.

na verdade, vou ficar por aqui também com você. Estou precisando tomar um chocolate. E, enquanto o tempo me dribla, eu sigo feliz olhando pros meus papeizinhos que tanto têm paciência comigo de passarem horas a fio, vazios e brancos, até que eu rasgue a branquidão. Mas, eles me esperam e me ajudam a depositar aquele infinito de idéias em minha mente as quais, outrora, não queriam me deixar dormir. Francamente!

abraços,

 missdemoiselle

Publicado por: MissDemoiselle | Janeiro 28, 2009

Da janela

Observo da janela os passos e os gritos dos meninos. A incompreensão. A distância. A superfície. Repudio a quem sempre quis repudiar. Amo – mais do que nunca amei – a quem sempre quis amar. Me entrego total, me deito no vazio, mergulho no silêncio. Odeio o que precisa ser feito, o falso bem-arrumado, o azedo amor, a cara-feia do falso, a inveja da cobra. Odeio como quem odeia o sujo. Odeio o orgulhoso. Entrego-me sem amarras, deleito-me da solidão das paredes tortas ao meu redor. Rio-me do leitor confuso. Amo – como quem muito ama – fazer parecer, fazer transparecer, ser o que é, deixar o falso. Observo os pisantes. Andarilhos confundidos pela falsa sobriedade. Humanistas atordoados pela vã filosofia. O miserável cheio de si. O incapaz cheio de nada. O orgulhoso miserável.  Observo os pisantes. Da janela, espio o belo. Enquanto um gato dá um salto no ar e rodopia lindamente. Espio o belo. O gato retorna. Distraída e as minhas folhas de papel voam pela janela e caem nos pés dos meninos. Folhas de papéis minhas. Retrato da minha memória. Amassadas e perdidas na lama e na gritaria contente dos meninos.

miss-demoiselle

 

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