
Ao meu belo eterno.
Amélie falava dele como se ainda estivesse vivo. Mantinha no olhar aquele brilho da época em que ainda sorriam juntos. Mantinha respirando a alma que virava criança perto dele. Cultivava ao longo dos anos aquela sanidade tênue, tão fina quanto um fio de óleo sobre o mar, e continuava viva. Mas, dentro de si, sua cabeça mantinha um coração distante. Um coração triste que chorava as lembranças e revivia os sons, as cores, os cheiros e os sussurros. E, ela revivia mantendo-se viva porque acreditava ter tempo de partida e tempo de chegada. E tempo de chegar a partida. E ir para sempre. Quando questionada sobre seu relacionamento, fitou o horizonte e sorriu de leve como se contemplasse um cenário próprio, só dela. Deles. Sorriu leve e disse que não tinham um relacionamento, tinham uma vida, de sorrisos, de discussões, de pequenos, de grandes, de prazeres. Uma vida inteira. Fios e fios de cabelo varridos pela vassoura gasta detrás da porta. Litros de expectativas, explosões de beijos, estômagos gelados. Uma vida inteira dum eterno primeiro encontro. Disse que não sofria ao lembrar-se dele, mas viver sem ele era esmagador, pois ninguém a conhecera tão bem e nunca haviam trazido tanta vida como aquele pedaço de si, como aquela metade tão bonita que conhecera comprando frutas. “Amá-lo era incondicional, era impossível rejeitar amor a quem me trouxe tanta vida. Era impossível pedir que fosse diferente, que fosse um amor comum que os outros tinham entre si; não tinha como viver um amor de cobranças, de indiferenças; um amor de maus tratos”. Amar aquele pedaço era o prazer de sua alma. Enquanto os homens invadem tantas moças e as fazem mulheres, ele ao contrário, a “ fazia menina” todos os dias, afirmava. Extraíra dela a melhor pessoa que era, a criança desesperada por colo, a carinhosa menina do interior, ela a fazia menina. Ele não a invadia, e nunca a sabotara, ainda que muitos queriam fazê-la acreditar que sim. “Poucos passam pela vida e encontram um amor verdadeiro, como o que eu encontrei”, disse ela, com os olhos marejados de uma lágrima doce, que lhe formava um véu por sobre os olhos amarronzados; e lhe isso caía tão bem. Enquanto falava, suas mãos estavam fechadas como se alguém as segurasse e entrelaçasse seus dedos nos dela, mas não havia outra mão ali, então entendi que eles costumavam se dar as mãos assim, cúmplices, um. “Não tínhamos um lugar preferido, um restaurante, um tipo de comida. Não tínhamos uma música, tampouco tínhamos programação”, soltando os imaginários dedos entrelaçados de sua fina e trêmula mão, apoiou o queixo com uma das mãos e deu de ombros completando, “todos os lugares eram nossos, todas as músicas e todas as comidas. Nada programávamos. Não tínhamos frescuras, tampouco futilidades. Vivíamos. Éramos a melhor dupla, a melhor companhia, e qualquer lugar se tornava nosso. Éramos livres”. Recostou-se na cadeira, olhou o retrato em cima do piano antigo e sorriu largo deixando mostrar suas covinhas quase imperceptíveis naquele rosto tão enrugado. Ficou par de minutos a observar aquele retrato amarelado, de um abraço tão laço. Era um abraço mudo que tanto gritava. Um abraço que gritava proteção e carinho, e gritava como eram livres. Um abraço que produzia dois sorrisos satisfeitos e, pelas covinhas da moça no retrato percebi que eram os dois, há muito tempo. Ela parecia estar mergulhada naquele dia que a foto congelou e voltou-se a mim dizendo: “não tínhamos noção de nós dois. nós éramos livres, verdadeiramente. nunca sentamos para dizer um ao outro: ‘como somos livres!’, não fazíamos de propósito, simplesmente éramos assim”, devagar continuou, “ele me amava muito puramente, de um modo só dele (…) ele me amava em silêncio, mas seus olhos gritavam tanto e quase choravam o amor que tinha por mim. A vida terminou sem ele. E eu, que sempre pedi que não se demorasse quando ia comprar algo. Eu que sempre odiei me despedir dele não sabia que era a última vez que veria aquele rosto grande e aqueles olhos que gritavam de amor por mim. Eu que sempre fui dramática, tão intensa, deixei a minha metade com ele. A gente já riu muito dessa vida, já ri muito com ele, daquela cara engraçada que sempre fazia. Ele fez um pacto com Deus e, conseguiu o meu manual”, disse em tom de brincadeira, quase como um suspiro, “ele sabia tudo o que eu precisava, ele se encaixava em mim, e era fácil… não driblávamos, não ensaiávamos e nem forçávamos; a gente simplesmente era feliz e completo e não sabia por quê. Era simples ser feliz com ele. Tão simples”. Falando isso, recostou a cabeça branca na poltrona macia e cerrou os olhos suaves, pintando um sorriso tranqüilo nos lábios. Cerrara os olhos para mim, para o mundo teatralmente programado, ao qual ela nunca se adaptara, e agora Amélie reencontrara aquele que a fazia menina. Ela o reencontrara. Feliz.
