partir.

janeiro 26th, 2012 § 3 Comentários

“Não dá mais pra voltar
E eu nem me despedi
Onde é que eu vim parar?
Por que eu fiquei tão longe?”
(Arnaldo Antunes)

Para Ana, era morrer partir. Era querer desistir, fugir, voltar pros braços, morrer no abraço.

Era vazio ir. Ficar à espera de não-sei-o-quê, engolir as lágrimas e fingir forças. Fingir gostar, fingir valorizar, fingir e fingir e fingir mais um pouco, morrer aos poucos e dar esmolas de seu esforço.

Voltar as costas e prosseguir era um suicídio. Como se o abismo estivesse ali atrás, como se a vida houvesse de aparecer, assim, de repente. Aquela vida cansada, aquela vida sem querer.

E partia. Com os olhos marejados, embriagada de dor e de saudades. a olhar os outros, a tentar ver aqueles outros embaçados bem diante de si. Via tantos outros felizes e tantos sorrindo aberto. Tantos plenos, tantos planos. E Ana fingindo ser livre. Ana se partia.

Que descontente ser inteligente. Abraçava o mundo com as pernas e saltava de peito e sorriso abertos, mas de coração cerrado. Que bonito ser inteligente – que bonito, minha gente! Viver matando leões, viver em prisões, em cárceres particulares, em sons despertadores.

Não dormia, não comia. A menina gemia – de dor – pela falta que faziam aqueles a quem deixou, pelo buraco do estilhaço, pelo câncer de viver só correndo atrás do que não era seu. Não era seu, era isso, e compreendeu que aqueles leões não podia matar. Que o mundo sorria por sorrir, mas quando chorava, o mundo se virava e lhe assistia partir.

Era preciso partir, mas nem sempre era preciso querer. Era se despedaçar e não ter cola para grudar, não ter forças para ir. Aos poucos, morria Ana partida em vários. Era morrer partir.

A morte de um amigo.

janeiro 19th, 2012 § Deixe um comentário

“E hoje, um dia solitariamente agradável, era dia para ter em meus olhos  - com franqueza e gratidão - aquilo que se tornara a caligrafia de minhas mãos.” (J.R.)

 
 

Havia resolvido passar uns dias em Bay Smooth.

Não é meu. Tomo emprestado quando quero ler os meus pensamentos e me rabiscar um pouco. Cheguei e tudo já me esperava, como se eu tivesse saído dali há dias. A cadeira rangente, o bule verde descascado, o cheiro do mar e aquele azul mordaz. O vento me recebeu de forma hercúlea, me agarrando pelos cabelos. E o silêncio veio ao meu encontro. Entendi que estava a sós.

Vários dias foram passando de forma desobediente, sem deixar rastros. Não, minto. Litros de café iam sendo consumidos, e inúmeras folhas de papel formavam uma pilha desonrosa no canto daquela saleta. O tiquetaque ria-se de mim, fumando e jogando a cabeça para trás, num gesto zombeteiro de puro escárnio.

Numa tarde, que já estava se pondo, senti que algo estava estranho como uma desordem, um desequilíbrio de rotação. Não optei por outra coisa senão quebrar o jejum e assim, quem sabe, o contato com uma outra pena, me trouxesse aprumo. Pena que outrora manchou tantos papéis comigo.

Não pensei muito. Irrompi em seu sítio que era próximo dali. Um lugar modesto, sem charme, mas que sempre me fora conforto. Avistei quase de perto, e parei. Quis ir mais devagar, observar esse lugar um pouco mais, outra vez. Casebre de madeira, a horta bem cuidada, e algumas pontas de charuto jogadas no chão. Tudo como sempre. Fui me aproximando e já anelando por um café recém passado. E o abraço bom, e o saber de ser compreendida. Havia  chegado no sítio de João Romova. Aquele gordo amigo, rabugento e solitário. Aquele conforto.

Bati na porta, gritei por alguém. Ri de mim mesma. Como poderia gritar por outro “alguém em casa” justamente no sítio daquele velho solitário? Gritei por ele, e só. Algumas tentativas adiante e dei as costas, com a decepção estampada, arrastando meu corpo de volta para Bay Smooth. Quando o costumeiro – e nunca consertado – gemido da porta se fez presente. Olhei rápido para trás, com um sorriso que estivera ali há pouco, mas não reconheci a figura.

Era um moço até, magro como a vida. Uma figura estranha, detida num par de óculos, que possuíam olhos familiares…e meus pensamentos foram interrompidos por ele.

Havia resolvido passar uns dias em Bay Smooth e foi lá que soube que meu amigo havia morrido.

Em um silêncio grafite, sozinho – partira. Foi como ficara o meu coração, rabiscado por um lápis cinza recém apontado. Sinto muito – eu sinto muito mais, meu jovem. E me arrastei, finalmente, para dentro do casebre. Sem João, sem café, sem aquelas lamúrias.

Li suas letras, para senti-lo uma última vez, porque seria diferente depois disso. Engoli cada uma das suas palavras, tocando naqueles rabiscos. E encontrei a seda que tecemos juntos, a quatro mãos – a duas penas.

E teci uma nova seda, com cores azuis-mordaz, marrom-café, verde-bule e rosa-papiro. Fiz aquarela nas suas cinzas.

Saudades para sempre.

Sua amiga,

Quente ninho.

agosto 21st, 2010 § 14 Comentários

Veja bem, foi você
A razão e o porquê
De nascer esta canção assim
Pois você é o amor
Que existe em mim…
[da Mata]

É porque agora o meu coração está mais quente que estou a lhe carinhar, menino. Devolvi a você o meu pedaço de alma e te perfumei gostoso com aquele jasmin. Que velho que ficou sem o meu sorriso e a minha pele boa. Que bobo que está assim, agora, sorrindo ao me ver tagarelar. É porque eu amo você, amo matar esse tempo, amo ficar aqui. Lendo, lendo e relendo é porque deu saudade dos anos que passaram. É como se fosse o vento, cada palavra sua, cada gostosura que abri e chupei tal qual a bala mais docinha que a mãe um dia me deu. Te saboreio, menino, sem saber de cáries, nem me deixar levar por tempos, sem saber de perigos. Te saboreio meio sem pressa, pra ver se é de caramelo ou chocolate, pra saber os dois.

É porque você deixou recado, você deu aquele sinal, e aqueceu meu coração. É quase um pecado o que estou a sentir.. uma vontade de entrar em você, igual no mergulho das aulas que nunca quis saber. Uma vontade de te furar pra morar aí dentro no resto do meu mundo, dessa minha vida. Viver aí, nesse conforto, nesse balanço. Mas, você é terrível, menino, porque a minha alma não cabe em mim, mas encontra abrigo em você. Por isso quero morar aí, nesse fundinho de você, nesse lugarzinho bom. Me leva praí que você também fica mais novo comigo, eu já vi, fica mais moleque. Me leva praí, pra gente ser essa alma toda, nessa rede de praia. Pra gente ser essa alma toda tão pequenininha, de chinelos e sorrisos.. meu menino, poesia pra mim, que essa sua vida me enche de calor. Poesia pra mim, que essa sua voz não me sai da cabeça. Esse seu balanço.

Meu amor.. você me carinha, eu estou perplexa. É tanto amor aqui nesse pote.. é tanto beijinho nessa festa..(!). É tanta alma aqui nesse meu peito que quase explodo, eu quase morro, meu amor. É alma demais que esse meu corpo não aguenta. É alma que corre tanto, e aí vem você me ensinando a correr, a não fingir. Aí vem você, coisinha, se orgulhando da minha alma e puxando ela lá, com pinça. Você me descobriu, meu bem.

Mas, não é porque é você. É que às vezes a vida minha é assim mesmo.. fico tanto tempo na caverna, tão guardada e tão solta, que quando saio encontro você e os outros. São tantos versos que tenho pra cantar, são tantas poesias que falam de mim, são tantas as canções que vêm morar no meu peito, são tantos os amores que eu sinto que não é só você que me deixa quentinha, coberta. São os cantores, meu amor. São os poetas.

Não chora, não. Eu não mudei. Cada dia eu te dou um pedacinho dessa barra toda. Cada dia eu te mando um pouquinho dos meus beijinhos, dos meus jilós. Dos meus feitiços, do meu vestido de poá. Não, não chora que dói mais. Dói porque tá querendo pôr pra fora, dói porque vai inchar, mas vai sarar também, depois que o nariz desentupir e o vento voltar a circular aí.

É que tem alma demais aqui, e quando você me aquece, parece que morro… daí eu nasço de novo, e torno a ser um outro pedacinho pra você. É que tem amor demais aqui, menino. E eu quero dar ele pra você. Esse aí não muda, seja doce, seja jiló. Esse aí é meu, é daquela alma grande, é de verdade, não dá cárie. Até se desse… você me deixa tão quentinha, coisinha, que eu te amaria de um jeito só, a vida toda…mesmo se minha alma não te amasse, eu daria um jeito e te furaria, pra dormir quentinha para sempre em você.

Pedaços.

agosto 12th, 2010 § 4 Comentários

Eu vou recolher os meus pedaços, ajuntá-los em frangalhos e dividí-los por aí.
Quem quiser que os agarre, agora sou apenas metade do resto que estou a construir.

Eu vou ajuntar em migalhas tudo aquilo que construí. Vou obedecer, vou ser juiz.
Eu vou amar com tudo, vou amar por inteiro. Queira este, queira amor, queira o meu gosto de mundo.

Eu vou viver os pedaços, desfazer os meus passos até aqui.
Recomeçar o velho mundo, apagar a cicatriz e voltar a viver.

Eu vou apagar os porquês, as honras e tremas.
Eu vou viver do avesso, eu vou viver aceso, viver pleno.

Eu vou burlas as regras, apagar todo o sistema, parafrasear o sujo.
Vou pular as estrofes, os trovadores e os tempos, vou dividir em cicatrizes.

Eu vou recolher os meus pedaços, ajuntá-los em frangalhos e dividí-los por aí.
Quem quiser que os agarre, agorou sou apenas metade do que resto que estou a construir.

O livro de Clarice

fevereiro 19th, 2010 § 9 Comentários

Lendo o livro de Clarice, meu nariz começou a coçar repetidamente. Talvez fosse pelo tempo em que eu me recusara a abri-lo, ou pela minha identificação tamanha com aquela personagen. Ou, talvez, por ambos.

O Solitário e a Bengala

novembro 23rd, 2009 § 12 Comentários

A bengala

ELE PARECIA MAIS um objeto. O enfeite da mesa, para ser mais razoável. Imóvel, alheio, estatuado. Parecia também não se importar com os demais sentados em sua mesa porque não lhe davam nem um pouco de confiança, afinal. Ele gostava e, também era forçado a permanecer em seu mundo individual, no mundo que só lhe cabia. Ficar ali com sua bengala e uma bebida gelada; era o que lhe acompanhavam enquanto sua companheira tagarelava com a amiga. Ele permanecia naquela inércia imposta enquanto um mundo interessante vivia ao seu redor e girava a todo instante. Ele parecia não ver. Era até um incômodo a maneira como se deixava ser só. Ser solitário ali, dentre tanta gente com alguma graça inerente. Irritante até a forma como deixara ser colocado em um mundo insatisfeito ao qual se adaptara e a solidão já lhe era companhia. Não mais amarga, claro que não. Era uma companhia que lhe trazia abrigo enquanto ele não agüentava mais ser só ouvidos, ouvidos e apenas ouvidos. Da tagarelice. Uma bengala e a bebida. Acessórios tão frios que poderiam representar mais do que objetos, porque na história, o objeto era ele. Um apoio e um mergulho e, a tentativa de se arriscar em algo menor que ele ou mais lento do que seus pensamentos. Em algo que fosse mais devagar do que aqueles minutos que corriam lentos, tartarugados, eternos. O viver como companhia estática. Ele transferia isso para a sua bengala que já tornara um apoio. E não é que precisasse dela, mas a solidão o fez envelhecer, corcundar. Além de que não há quem beba gelada em uma cafeteria, se não fosse apenas uma desculpa para se sentar ali.

E, permanecia ali, tão parado; tão chato naquele silêncio. E a mulher continuava a tagarelar e ele começou a virar um coitado. De tão parado, de tão apoiado na bengala, um coitado parado e solitário. Aquela lata vazia, o copo suado e ele jazia inerte, pensativo. Numa facilidade dantesca de, visivelmente, se transportar e, de tão insatisfeito, alcançar um nirvana utópico, mas que era tão real naquele momento que… contagiava. Ele bem que podia quebrar aquele silêncio e virar a mesa. Quebrar os copos, sabe. Tapar a boca da companheira, dizer verdades para a amiga da tal, virar as costas e ir-se embora mesmo. Daquele jeito bem de filme, onde se surta e vai atrás do que realmente se quer. Ou, pelo menos, impor seu papel de homem, de parte do casal, e fazer aquelas duas se divorciarem, pararem de amar conversar, de se amar, e amá-lo um pouquinho que fosse. Daí ele seria um mendigo, mas pelo menos, seria um pouco menos quedo.

Como se gozasse do desconforto de quem o observava,  num instante, sem muita pressa, rasgou o tumulto, quebrou o silêncio, levantou os braços e pediu mais uma gelada. Só que agora, estupidamente gelada. E, retornou ao seu ponto inicial, de onde nunca saíra. Continuou naquela insatisfação consentida, naquele viver que mais parecia um fechar os olhos. Continuou inerte e sua bengala mais viva do que ele.

E ninguém o percebeu.

_________________________

“Porque, para morrer, basta estar vivo (…)”
Ou não…

Do alto, para João.

novembro 8th, 2009 § 4 Comentários

[Do alto, Miss

... para entender, João]


resposta a [Missivas de João]


84429157


Meu estimado João Romova,



Dizem que quando se vê as coisas do alto, se vê melhor. Subi ao teto e sentei-me; eu e a xícara de chocolate, para escrever-lhe. Assim enxergo melhor aquilo que quero dizer.


No mínimo fascinante foi o encontro à quatro. Meia-luz, bebidas, sons. Cada um com seu material; flores nas mãos da menina, poesia quente do cantor, canetas vermelhas berrantes – berrantes do menor – lápis na mão de você. Uma dança, por assim dizer, com passos sem definição, mas com encaixes cheios de uaus.


Devo dizer que a carta que me enviaste fez a minha alma poeta descobrir que canta. A menina além das asas, agora quer voar e descobrir essa varanda que declamaste. Quer entender a poesia de namorar estrelas, de passear no céu, de vestir o manto. Além do alto, quer voar e catar as flores que nascem no topo das copas para evitar que elas se sequem. Ah, João, podes ver o que fizeste (…) ?


João, João… você é como uma xícara de café. Sem almíscar, canela, ou chocolate de menta. É puro café. João é sentar-se na varanda, é brisa, é desespero, é trago, é calmante. João é conforto. Posso assim dizer que café é poesia, pois João de todo é manso, acolhedor, suspenso. Então é isso. Subi no teto para me sentir como João me faz. Suspensa em suas linhas e navegante em seus pensamentos.


Cansei de sentar pois não vi muita coisa de diferente daqui de cima. Deitada, posso ver o céu e, então, resolver voar para mais alto. Fico imaginando seus dias de solidão. Seu olhar perdido na janela durante a madrugada fria e o silêncio da noite te recepcionando. Imagino quando reclina em sua poltrona, retira os óculos, esfrega os olhos e tapa os ouvidos como se quisesse silenciar um pouco aquela poesia rabugenta que lhe fala aos ouvidos todo o tempo. E sente que precisa de café.


Um gole. E a poesia cala. Restando apenas o que é João. João é a mistura de todas as cores e a ausência de todas elas. É o preto no branco. O veloz e a suma. A palavra e o silêncio. João abraça. É gentileza, e afeto. É poeta em essência, é essência de sua própria poesia. João é café. Puro café,  sem amêndoas. João é João por si só, por saber ser.


Parar para escrever é sempre um bom começo. Parar para reler. Parar para ver. Para entender. Sentir. Para ver, João (…).


Enfim, Maria termina o seu outono. Toma a flor João, que é chegada a Primavera.



miss demoiselle

Os gritos de Marília

setembro 16th, 2009 § 10 Comentários

89997712

Marília desenha os traços dos que a traçam. Dos que colocam uma perna para ela cair. Quer silenciar a voz dos que falam. Dos que gritam que se cansaram. Marília anda e anda muito. Anda até não poder mais. Anda e escuta a música que lhe fala aos ouvidos. Um mistério isso é (…) o fato de que o passado fala a Marília. De que o passado é tão alto quanto aquela coisa que se desfazia de si. No passado. Ele é grande e irrepreensível. O passado adora trair – atrair; fazer cair, Marília. Ele abre os buracos. Ele se ri. Enquanto ela aguenta tamanha safadeza, tamanho escárnio doentio, ele canta. Canta aos ventos, grita e desafina. Desafina tal qual o seu pobre lamentar que se arranha sem entender, que se cansa buscando o porquê, que acentua, que pontua, que não diz o quê. Que busca o quê. Que fica a mercê dos gigantes que, nessa hora, a invadem o pensamento e a amedrontam. Assaltam a sua paz, a dizem menos. Dizem-na durezas, jogam em sua cara.

É claro que se rende, e talvez sempre será rendida. Mas, tenta buscar antes que se canse. Tenta não mostrar que cansou (…) eles se cansaram. Depois de se cansarem, irão odiar. Como todo mal precede um mal pior. É assim. Marília até pinta os lábios e a cara. Mas, não adianta. Não adiante, um a desmascara. Não adianta. Adiante, um a faz tropeçar. Segue assim, Marília, tentando falar, tentando engolir. Seguem assim, sem querer entender, só a proferir seus gritos contra ela. Só a dizer o tamanho que são (…) esses gigantes que a querem fazer cair.

Marília coça as orelhas e tenta fazer o avesso da trama. Tenta se esconder. E a água precisaria estar mais gelada, e a água não levaria embora; não demora e já está a enlouquecer tentando responder o que esta triste canção a pergunta; a insulta. Perturba a tristeza do vento, o peso que esse momento deixa sobre Marília. Até tentou fazer com que o vento voltasse para sua habitação, mas ele ama por demais aquilo que o distrai – ama a sua impaciência em abanar o seu pescoço.

É claro que não será assim sempre. Que um dia o vento se umidificará e o lamento não mais agridirá o seu coração. Que um dia o pranto se converterá e que as pernas dos que antes se prontificaram em ser o seu tropeço, um dia serão as suas pontes. Que um dia as adversidades, de tão contrárias, a guiarão para o que Marília chama de certo. De peculiar. Para aquilo que um dia Marília sonhou ter. Um tesouro.

Memórias

junho 29th, 2009 § 38 Comentários

sb10063511cw-001

Ao meu belo eterno.

Amélie falava dele como se ainda estivesse vivo. Mantinha no olhar aquele brilho da época em que ainda sorriam juntos. Mantinha respirando a alma que virava criança perto dele. Cultivava ao longo dos anos aquela sanidade tênue, tão fina quanto um fio de óleo sobre o mar, e continuava viva. Mas, dentro de si, sua cabeça mantinha um coração distante. Um coração triste que chorava as lembranças e revivia os sons, as cores, os cheiros e os sussurros. E, ela revivia mantendo-se viva porque acreditava ter tempo de partida e tempo de chegada. E tempo de chegar a partida. E ir para sempre. Quando questionada sobre seu relacionamento, fitou o horizonte e sorriu de leve como se contemplasse um cenário próprio, só dela. Deles.  Sorriu leve e disse que não tinham um relacionamento, tinham uma vida, de sorrisos, de discussões, de pequenos, de grandes, de prazeres. Uma vida inteira. Fios e fios de cabelo varridos pela vassoura gasta detrás da porta. Litros de expectativas, explosões de beijos, estômagos gelados. Uma vida inteira dum eterno primeiro encontro. Disse que não sofria ao lembrar-se dele, mas viver sem ele era esmagador, pois ninguém a conhecera tão bem e nunca haviam trazido tanta vida  como aquele pedaço de si, como aquela metade tão bonita que conhecera comprando frutas. “Amá-lo era incondicional, era impossível rejeitar amor a quem me trouxe tanta vida. Era impossível pedir que fosse diferente, que fosse um amor comum que os outros tinham entre si; não tinha como viver um amor de cobranças, de indiferenças; um amor de maus tratos”.  Amar aquele pedaço era o prazer de sua alma. Enquanto os homens invadem tantas moças e as fazem mulheres, ele ao contrário, a “ fazia menina” todos os dias, afirmava. Extraíra dela a melhor pessoa que era, a criança desesperada por colo, a carinhosa menina do interior, ela a fazia menina. Ele não a invadia, e nunca a sabotara, ainda que muitos queriam fazê-la acreditar que sim.  “Poucos passam pela vida e encontram um amor verdadeiro, como o que eu encontrei”, disse ela, com os olhos marejados de uma lágrima doce, que lhe formava um véu por sobre os olhos amarronzados; e lhe isso caía tão bem.  Enquanto falava, suas mãos estavam fechadas como se alguém as segurasse e entrelaçasse seus dedos nos dela, mas não havia outra mão ali, então entendi que eles costumavam se dar as mãos assim, cúmplices, um. “Não tínhamos um lugar preferido, um restaurante, um tipo de comida. Não tínhamos uma música, tampouco tínhamos programação”, soltando os imaginários dedos entrelaçados de sua fina e trêmula mão, apoiou o queixo com uma das mãos e deu de ombros completando, “todos os lugares eram nossos, todas as músicas e todas as comidas. Nada programávamos. Não tínhamos frescuras, tampouco futilidades. Vivíamos. Éramos a melhor dupla, a melhor companhia, e qualquer lugar se tornava nosso. Éramos livres”. Recostou-se na cadeira, olhou o retrato em cima do piano antigo e sorriu largo deixando mostrar suas covinhas quase imperceptíveis naquele rosto tão enrugado. Ficou par de minutos a observar aquele retrato amarelado, de um abraço tão laço. Era um abraço mudo que tanto gritava. Um abraço que gritava proteção e carinho, e gritava como eram livres. Um abraço que produzia dois sorrisos satisfeitos e, pelas covinhas da moça no retrato percebi que eram os dois, há muito tempo. Ela parecia estar mergulhada naquele dia que a foto congelou e voltou-se a mim dizendo: “não tínhamos noção de nós dois. nós éramos livres, verdadeiramente. nunca sentamos para dizer um ao outro: ‘como somos livres!’, não fazíamos de propósito, simplesmente éramos assim”, devagar continuou, “ele me amava muito puramente, de um modo só dele (…) ele me amava em silêncio, mas seus olhos gritavam tanto e quase choravam o amor que tinha por mim. A vida terminou sem ele. E eu, que sempre pedi que não se demorasse quando ia comprar algo. Eu que sempre odiei me despedir dele não sabia que era a última vez que veria aquele rosto grande e aqueles olhos que gritavam de amor por mim. Eu que sempre fui dramática, tão intensa, deixei a minha metade com ele. A gente já riu muito dessa vida, já ri muito com ele, daquela cara engraçada que sempre fazia. Ele fez um pacto com Deus e, conseguiu o meu manual”, disse em tom de brincadeira, quase como um suspiro, “ele sabia tudo o que eu precisava, ele se encaixava em mim, e era fácil… não driblávamos, não ensaiávamos e nem forçávamos; a gente simplesmente era feliz e completo e não sabia por quê. Era simples ser feliz com ele. Tão simples”.   Falando isso, recostou a cabeça branca na poltrona macia e cerrou os olhos suaves, pintando um sorriso tranqüilo nos lábios. Cerrara os olhos para mim, para o mundo teatralmente programado, ao qual ela nunca se adaptara, e agora Amélie reencontrara aquele que a fazia menina. Ela o reencontrara. Feliz.

miss demoiselle

Por: libabda em julho 4, 2009
Igualzinho o nosso.
Isso existe!

Beijo minha fofa…

Por: MissDemoiselleem julho 4, 2009
é, meu belo eterno, existe sim…
e é só nosso…
beijo, meu amor

Sua Janela Quente

junho 22nd, 2009 § 8 Comentários

200235864-001

Eu estava em frente a sua janela e parecia um bêbado tolo segurando aquele telefone como se fosse um pedaço dela. Estava morrendo de medo de que ela se desfizesse para sempre, assim que desligou o telefone na minha cara. Medo de que ela se desfizesse para sempre como o efeito daquele álcool no meu sangue. Segurei o aparelho nas mãos o mais forte que pude para que ela não se fosse. E, depois, eu o quebrei como se ela pudesse ver o que fiz e, sentir a dor do aparelho desfigurado na minha frente. Queria que fosse ela, queria desfigurá-la para sempre, queria amá-la, possuí-la. Queria matá-la. Eu cheguei a lhe dizer isso e, talvez tenha sido por isso e, pelo ódio acumulado por mim nesses anos, que a tenha feito desligar na minha cara. É isso que odeio nela, seu senso de humor fraco, pobre. E, também odeio o fato de que ela nunca me amou como eu a amo. Eu queria sacudi-la e fazê-la entender o meu desequilíbrio, mas ela não compreendia. Vivia tentando se entender, se escutar, se isolar, se comunicar e me deixar de lado, como se sua vida fosse a peça principal do teatro e eu um figurante passageiro e bêbado. Eu queria beber vinho em seus lábios rubros e beijar seus olhos pretos de lápis borrado. Eu queria aquele olhar esnobe que possuía quando fumava seu cigarro e me olhava por cima, com ar de nobreza. Queria envolver sua cintura e mergulhar aquele corpo macio no meu.  Eu queria estar tonto ao lado dela, mas agora só me restava quebrar o telefone e ficar sem notícias. Eu nunca entendi sua necessidade de vários amores, assim como ela nunca entendera a minha obsessão. Eu estava viciado em observar sua janela e ficar horas parado congelando no frio apenas para ver sua sombra no quarto. Às vezes eu via um par de sombras e tinha medo de que fosse verdade, então eu bebia mais e fingia para mim mesmo que eram os meus turvos olhos embriagados que me vaziam ver assim. A minha santa deusa, o meu anjo assexuado, o cerne do meu desejo, da janela me olhava e desligava a luz. Me deixava pobre, me deixava nu.  Tinha prazer em me fazer coitado, em me fazer amante de longe, em me provocar, em me esquecer. E eu, um louco apaixonado, um triste abandonado, gritava a todo pulmão e dizia que a amava. Eu estava sóbrio e estava bêbado. O frio cada vez mais dolorido. Ela dizia que meu amor era demais e que ela não o merecia. Mentira. Isso era a desculpa que ela usava para alimentar seu vício pela liberdade e seu pouco caso com o amor. E dizia que eu bebia demais. Desculpa. Ela era mestre em inventar motivos de não me amar, mas eu não podia arrancar sua alma de meretriz e as doses de álcool que me deixavam insuportável. Ela era assim e nada a faria mudar. Nem o meu amor. Eu a amava embevecidamente. Da rua, como de costume, ficava a observar. E, a ouvir o som da triste melodia francesa que saia pela madrugada de sua janela. Quantas vezes eu já beijei aquela boca debaixo daquele som, quantas vezes a amei em francês… Minha dor era tão triste quanto aquela voz musicada, tão sofrida quanto aquela letra. Aquela rua tão triste e tão cinza e aquele quarto lá em cima, tão quente, tão meu, tão ontem. O meu amor por ela dói e a falta não me conforta;  a bebida só me esquenta enquanto passo as noites a observar e virou a minha doença assim como os seus amantes. Ela não sabia se prender e jamais seria só minha. E eu adormeci naquela calçada em frente a sua janela quente. Abraçado a uma garrafa de pinot noir, caído, beijando o chão, e adormecido pelo efeito do vinho. Escutei um chocalho de longe e reconheci sua tornozeleira cigana naqueles pés que tanto beijei. Ela se aproximou e fiz-me de desfalecido. Ela se abaixou e, jogando algumas moedas no chão, sussurrou: “só tenho migalhas, meu senhor”. E saiu a andar, chacoalhando aquele pé pintado de vermelho e aquela cintura que delineava a minha paixão. E eu sabia que era verdade. Que dela só viriam pedaços. Pedaços de outros amores e pedaços de amor por mim.

miss demoiselle

Música: Lucienne Boyer em Parlez-moi d’Amour

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.