
ELE PARECIA MAIS um objeto. O enfeite da mesa, para ser mais razoável. Imóvel, alheio, estatuado. Parecia também não se importar com os demais sentados em sua mesa porque não lhe davam nem um pouco de confiança, afinal. Ele gostava e, também era forçado a permanecer em seu mundo individual, no mundo que só lhe cabia. Ficar ali com sua bengala e uma bebida gelada; era o que lhe acompanhavam enquanto sua companheira tagarelava com a amiga. Ele permanecia naquela inércia imposta enquanto um mundo interessante vivia ao seu redor e girava a todo instante. Ele parecia não ver. Era até um incômodo a maneira como se deixava ser só. Ser solitário ali, dentre tanta gente com alguma graça inerente. Irritante até a forma como deixara ser colocado em um mundo insatisfeito ao qual se adaptara e a solidão já lhe era companhia. Não mais amarga, claro que não. Era uma companhia que lhe trazia abrigo enquanto ele não agüentava mais ser só ouvidos, ouvidos e apenas ouvidos. Da tagarelice. Uma bengala e a bebida. Acessórios tão frios que poderiam representar mais do que objetos, porque na história, o objeto era ele. Um apoio e um mergulho e, a tentativa de se arriscar em algo menor que ele ou mais lento do que seus pensamentos. Em algo que fosse mais devagar do que aqueles minutos que corriam lentos, tartarugados, eternos. O viver como companhia estática. Ele transferia isso para a sua bengala que já tornara um apoio. E não é que precisasse dela, mas a solidão o fez envelhecer, corcundar. Além de que não há quem beba gelada em uma cafeteria, se não fosse apenas uma desculpa para se sentar ali.
E, permanecia ali, tão parado; tão chato naquele silêncio. E a mulher continuava a tagarelar e ele começou a virar um coitado. De tão parado, de tão apoiado na bengala, um coitado parado e solitário. Aquela lata vazia, o copo suado e ele jazia inerte, pensativo. Numa facilidade dantesca de, visivelmente, se transportar e, de tão insatisfeito, alcançar um nirvana utópico, mas que era tão real naquele momento que… contagiava. Ele bem que podia quebrar aquele silêncio e virar a mesa. Quebrar os copos, sabe. Tapar a boca da companheira, dizer verdades para a amiga da tal, virar as costas e ir-se embora mesmo. Daquele jeito bem de filme, onde se surta e vai atrás do que realmente se quer. Ou, pelo menos, impor seu papel de homem, de parte do casal, e fazer aquelas duas se divorciarem, pararem de amar conversar, de se amar, e amá-lo um pouquinho que fosse. Daí ele seria um mendigo, mas pelo menos, seria um pouco menos quedo.
Como se gozasse do desconforto de quem o observava, num instante, sem muita pressa, rasgou o tumulto, quebrou o silêncio, levantou os braços e pediu mais uma gelada. Só que agora, estupidamente gelada. E, retornou ao seu ponto inicial, de onde nunca saíra. Continuou naquela insatisfação consentida, naquele viver que mais parecia um fechar os olhos. Continuou inerte e sua bengala mais viva do que ele.
E ninguém o percebeu.
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“Porque, para morrer, basta estar vivo (…)”
Ou não…









