Miss Demoiselle

Na íntegra, a carta que João Romova escreveu para Miss Demoiselle, depois de um quarteto de mãos. 

Querida Demoiselle,

Estou aqui entre os afazeres do dia, cantarolando aquela música que veio me falar de ti. Percebi que além de estar meio rouco para cantos estou também para poesia. Do mesmo modo que o excesso de falas provoca tal incômodo, foi assim o que me aconteceu depois do encontro que tivemos: o quarteto das letras. Pense cá comigo!

Um deles, o mais novo, é raro e avesso, é canhoto. É a juventude em nossa frente feita em vogais e consoantes, é vermelho! – das cores primárias há alguma outra que de modo mais dramático se extrai da Criação?

Um outro, de letras moídas, amargas e revigorantes, era puro café. Tem uma literatura que vai bem com pão-de-queijo, leite e principalmente bolo de fubá. Já o terceiro é de poesia fluída, cotidiana, retira nossa mediocridade como a água quente e a alegria em forma de canto feita no chuveiro.

E tu, bem… tu és aquela que andas com a poesia como se fosse um grande bouquet.Canta e dança pelas ruas perfumando os ambientes e invadindo displicentemente com versos os pulmões daqueles que te cercam. Sim, tu misturas teus pensamentos ao sangue deles dando-lhes fôlego; ao corpo, à alma. Tu és puro inverso.

Sei que neste acorde as notas médias e graves foram importantes. Como toda nota é. Mas ouvir a tua voz em  foi a maior beleza que todo sol já ousou ter em sua clave. E não me espantou perceber que tua voz emitia tal nota. Não sabes tu que ela é quem afina toda a orquestra? Que anuncia a música e principia o silêncio? Que unifica e, ao mesmo tempo, individualiza cordas, madeiras e metais? E foi assim o que me fizestes perceber em ti. Que tu és uma orquestra inteira, tu és as ciências e as artes. Tu és letra, canto e pintura. Com todos os seus segredos e devaneios tu és, ao mesmo tempo, sacerdote, divindade e templo.

Tu és a entidade da poesia porque ela é tudo aquilo que nos cala. Meu avô assim me falava – ele, que também era poeta, dos mais simples que já vi. Tinha uma caligrafia rude, mas de palavras sábias – filho, poesia é tudo o que nos invade e tudo aquilo que nos abandona. É o paradoxo paladar, é o gosto ácido e doce das tâmaras, é o fechar dos olhos pela dor cruciante.

Assim estou hoje, esperando o momento em que a tua poesia me abandonará, que me deixará respirar. Pois eu ainda a sinto nos meus pulmões, vejo-a nos meus poros. Eloquente presença na minha rouquidão.

Talvez isso explique a demora que tive para escrever-te. Com esse teu modo franco de ser, sendo uma completa menina e imponentemente mulher, invadiste um mundo que agora é feito um pouco mais belo. Acredite.

Ainda que tu teimes em não largar essa tua mania de sempre ressaltar as tuas escuridões, saibas tu que elas sequer puderam amenizar o que percebi em ti através deste teu modo invasivo e gentil de ser. Para mim, um poeta já velho, a escuridão é sofá e varanda pra quem tem no coração o vício de namorar as estrelas.

A ti, uma de minhas xícaras.

joaoromova

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