Meia-Noite

Ilustração:  Jader de Melo

Ilustração: Jader de Melo

No silêncio da meia-noite sob o sorriso dessa lua inteira.

O abraço dessa meia ponte, seu braço todo ao meu redor,

– minha alma e meia no seu laço.

No silêncio dessa brisa fria beija meu cabelo o vento

beija o balanço das árvores despidas o farfalhar das folhas caídas.

No silêncio dessa meia noite, essa meia luz sobre nós.

No imenso dessa noite, essa sombra que nos faz um só.

O concreto dessa ponte que nos liga por inteiro.

No silêncio dessa meia noite que fui imenso

– te abriguei em minha metade, te fiz encaixe

no silêncio da meia-noite as estrelas rindo faceiras

Da minha, da sua maneira de iluminar o amor.

Paira, chega e fica.

Não há, dentre todas as belezas que há na vida, nada que supere a surpresa. Porque chega. Simplesmente chega, como um pouso, encontrando lar, trazendo beleza, ela vem. Leve.

O que antecede a surpresa é o silêncio. Como se todo o universo permanecesse quieto, bem quieto, e calmo. Como se o tempo parasse durante o caminho que a surpresa percorre, silente, paciente, até alcançar quem (não) lhe espera.

A surpresa é o contrário da pressa. A surpresa se parece com o amor. Porque apenas vem. Vem sem troco, sem nada, desprovida. Apenas vem e, quando chega, faz os olhos explodirem. Faz os dentes rasgarem o envelope, faz as cascas caírem, os muros desfalecerem.

A surpresa se parece com o amor, porque vem. A seu tempo, do seu jeito. Chega colorindo, sorrindo astuto, feliz, roubando uma reação dos olhos, o largo dos lábios, o batimento do coração. E com isso se contenta – em alegrar. A surpresa é alegre por fazer o outro feliz.

Fique, você e o amor que trouxe. Que fiquem. Em todas as minhas páginas, em toda a alegria que veio junto, em todo o laço que existe. Sua aproximação é de beleza terna, de uma ternura bela. Eu me sinto navegando sobre as calmas ondas desse mar, desse seu olhar. Eu senti o amor gritando a pulmões na imensidão de tudo o que esse nosso íntimo esconde. Esse imenso oceano do que ainda iremos descobrir sobre nós dois.

É você a parte mais bonita, o conjunto mais belo de cores que tenho. Porque o mais belo para mim não é a poesia dita, mas a silente.

Fique, eternamente.

A Minha Casinha

Em meus desenhos de criança, o que fiz foi desenhar casinhas.

Todas as casinhas tinham portas e janelas. Cortinas e telhas. Como se eu já talhasse, inda pequena, detalhes.

Todas com caminho até a porta, todos caminhos coroados com flores e pedras. Até parece que eu previa cada dor e alegria que teria.

Todas as casinhas tinham árvores, as árvores frutos, as árvores redes. Como se eu já entendesse de semeadura e colheita, de trabalho e descanso.

Todas elas, as minhas casinhas, tinham caixa do correio. Como se lá, mesmo na minha pequenina noção de vida, eu já me soubesse de laços, de selos, de pontes.

Mas, foi já adulta, dona de muita vida, que percebi o que faltava em todas as minhas casinhas: cercas.

Mas,também, foi adulta que entendi a necessidade de proteger-me.

Vieram na hora certa essas belas cerquinhas. Pois, foi me abrindo demais que me acertaram pedras. Mas, foi me abrindo demais que me deixei conhecer por dentro, que me fiz mais forte, que conheci o amor.

Vieram oportunamente essas lindas cerquinhas. De madeiras, não muito altas. Para que todos os que vierem, batam palma primeiro para ver se o dono está.  Para entender de limites, de nível de intimidade, de espaço.

De madeira para entenderem que o que sou pode ser bonito, mas é resultado de talho, farpas e ajustes. De calos nas mãos  de um carpinteiro atento.

SOB OS ESCOMBROS PALESTINOS

Naji al-Ali, 1987

Naji al-Ali, 1987

Agora, sob os escombros palestinos, repousa o silêncio. O silêncio devastador que a morte deixou. Repousa o silêncio de um jejum interrompido. De estômagos que morreram vazios em devoção e sacrifício.

O silêncio de festas de casamento que não acontecerão, do Eid que não haverá. Repousa a massa de pão que não foi assada, os chás que nunca serão tomados.

O silêncio caminha por entre o concreto. O concreto que esmaga os risos que um dia apareceriam numa tarde de sol qualquer. Concreto que esmaga os filhos no ventre, os filhos dos sonhos que viriam. Esmaga alianças que não foram entregues, rasga vestidos que nunca serão usados.

Agora, sob os escombros palestinos, nada se mexe. Mover-se aumentaria a dor do coração luxado. Tudo repousa num silêncio triste e negro. Bocas sem sorriso, ouvidos que nunca mais ouvirão as vozes queridas, tampouco os estrondos.

Sob os escombros palestinos não existe massa, nem estatística. Não existe jornalismo, não há mídia. Existem rostos, histórias que, num átimo, deixaram de existir. Vidas sugadas, sonhos que desapareceram num repente. Existe um rosto, um coração, um outrora abrigo de sonhos.

A televisão, sob os escombros, perdeu-se no desenho animado que distraía os menores dos terríveis barulhos. Apagou-se nos 20 minutos de Oum Kalthoum. Deixou de cantar a memória dos dias mais felizes. A televisão sucumbida pela explosão. Sob os escombros palestinos repousa a sombra da morte, escorre o sangue inocente, entra na terra a carne dilacerada que orfaniza a criança sobrevivente.

Sob esses escombros, repousa a alma cansada, que dormia sem paz, que dava boa noite em beijo profundo, em abraço eterno, querendo traduzir o medo de nunca mais acordar. Sob eles, repousam essas almas cansadas, que irão eternizar seu riso e seu jejum embalados pela paz do cerrar dos olhos. A morte eterniza as lembranças, o massacre santifica.

Sob os escombros palestinos, nasce um broto de oliveira. Alheio à guerra, cresce. Alheio às bombas, seivando para cima. Cresce a resistência palestina que clama paz e justiça. Cresce alheio ao terror e ávido por frutos. E o vento do juízo sopra suas folhas.

Sob esses escombros, nascemos. A revolta berrou nosso nome, a injustiça clamou nossa interferência. Nosso coração se levantou pela luta. Agora, da terra palestina, os frutos emergem. Coração de esperança, mãos vestidas de justiça. Emergem, sem silêncio.

Ouçam nossas vozes – as vozes dos vivos – a Palestina espalhou-se!

 

Garrafa Vazia

Photo by Kristina Mayer on kristinamayer.blogg.no

Kristina Mayer on kristinamayer.blogg.no

Eu deveria ter arrumado a casa e só fui me dar conta disso quando ela chegou e, meio sem jeito, foi tirando minhas camisas amassadas do sofá para sentar-se. E, ficamos ali, sentados frente a frente. Eu, sem saber o que dizer. E ela, sem querer ouvir. Eu achava até bom aquele jeito de não saber escutar que lhe pertencia bem, até porque eu nunca saio da primeira frase.

Enquanto eu divagava vendo aqueles olhos verdes me fitarem esperando que eu me transformasse de repente em um homem que eu nunca fui, ela apertava as unhas bem feitas contra a própria pele do dedo, indicando sua ansiedade.

Estávamos ali, dois doentes que a vida teceu. Dois seres. Contudo, um deles era incrivelmente belo com aquele jeito doce de dizer meu nome, e aqueles cílios de boneca que sempre admirei e como eles a faziam parecer uma boneca particular minha. E, o outro dos seres era mais repugnante, fedido e desorganizado, não se conhecia tão bem assim, apesar de falar, falar, falar (…), isso sem contar as vezes que soltava arrotos disfarçados da soda antiga que abrigava-se em minha geladeira.

Ela ignorava tão bem esse fato, e ainda me conseguia fazer um homem amado. Apesar de eu ser quem era. Mas, sempre fomos assim. Eu me odiando e ela vendo em mim o melhor dos homens. E eu tentando esmagar essa impressão que tinha de mim, para que me odiasse até o ponto de que as impressões falsas dela (que eu mesmo provoquei) fossem semelhantes às da minha mente doente. Aí eu estaria satisfeito.

Ela levantou-se rapidamente, como se não tivesse encontrado o que procurava em mim. Eu nem tinha o que oferecer mesmo porque a soda estava sem gás. Mas, não sei se era isso que procurava. Apenas deixei-a ir.