Garrafa Vazia

Photo by Kristina Mayer on kristinamayer.blogg.no

Kristina Mayer on kristinamayer.blogg.no

Eu deveria ter arrumado a casa e só fui me dar conta disso quando ela chegou e, meio sem jeito, foi tirando minhas camisas amassadas do sofá para sentar-se. E, ficamos ali, sentados frente a frente. Eu, sem saber o que dizer. E ela, sem querer ouvir. Eu achava até bom aquele jeito de não saber escutar que lhe pertencia bem, até porque eu nunca saio da primeira frase.

Enquanto eu divagava vendo aqueles olhos verdes me fitarem esperando que eu me transformasse de repente em um homem que eu nunca fui, ela apertava as unhas bem feitas contra a própria pele do dedo, indicando sua ansiedade.

Estávamos ali, dois doentes que a vida teceu. Dois seres. Contudo, um deles era incrivelmente belo com aquele jeito doce de dizer meu nome, e aqueles cílios de boneca que sempre admirei e como eles a faziam parecer uma boneca particular minha. E, o outro dos seres era mais repugnante, fedido e desorganizado, não se conhecia tão bem assim, apesar de falar, falar, falar (…), isso sem contar as vezes que soltava arrotos disfarçados da soda antiga que abrigava-se em minha geladeira.

Ela ignorava tão bem esse fato, e ainda me conseguia fazer um homem amado. Apesar de eu ser quem era. Mas, sempre fomos assim. Eu me odiando e ela vendo em mim o melhor dos homens. E eu tentando esmagar essa impressão que tinha de mim, para que me odiasse até o ponto de que as impressões falsas dela (que eu mesmo provoquei) fossem semelhantes às da minha mente doente. Aí eu estaria satisfeito.

Ela levantou-se rapidamente, como se não tivesse encontrado o que procurava em mim. Eu nem tinha o que oferecer mesmo porque a soda estava sem gás. Mas, não sei se era isso que procurava. Apenas deixei-a ir.

 

Anúncios
This entry was posted in Blogroll by Tâmara Abdulhamid. Bookmark the permalink.

About Tâmara Abdulhamid

palestina, engenheira e blogueira… …mas, é muito injusto uma vida inteira para viver e me definir por linhas. Por isso, espalho pedaços de mim em vocês, nas linhas, naquilo que invento e chamo de amor. Por isso existe o café. Para que você entre, me abrace, se aconchegue, converse e deixe o amor acontecer. De qualquer jeito, do jeito que couber, do jeito que for.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s