Sobre o tempo

Estimado R.,

Não sei se o tempo ou a vida (quem consegue separá-los?) permitiu que você parasse e sentasse para escrever um pouco. Nem sei ao certo se você conseguiu ser senhor do tempo desde que instalaram-se as festividades.

Grande foi o meu desgosto com a velocidade de tudo. As pessoas, os sorrisos, o afeto e o calor sumiram com a velocidade da luz e tudo se renovou sem que eu também fizesse meu ciclo. Fiquei no meio de tudo, da correria sem propósito e não tive tempo para reflexão.

O que me leva a pensar que isso já é uma reflexão em si: o fato de não ter refletido sobre nada por culpa do tempo. E mais, me leva a pensar o que é mesmo esse ciclo do qual todos falam? Uma métrica desses versos que fazemos sobre a vida, uma forma de delimitar prazos e renovar decisões, uma forma de esperança? O que é mesmo esse ciclo? Um livro que já está preenchido pelo nossos próprios dedos e, inevitavelmente, pelos dedos dos que interferem em nossas vidas de todas as maneiras… Então, o que é um novo ano senão uma continuação?

Visto isso, acredito que o nosso trilhar se submete mais a nós, e aos ciclos que vamos vivendo, do que ao tempo, propriamente dito. Nosso horizonte não obedece nossas especulações e tentativas de acerto. Nosso horizonte é um eixo que corre livre, independente, enquanto somos, tão somente, o gráfico projetado, entre tudo o que sobe e cai.

Vê? Escrever-lhe é refletir. Direcionar-me a você, R., é poder pausar. É deixar o tempo ser livre e desamarrar meus grilhões imaginários.

Posso, hoje, dizer que refleti depois de tudo. Não quero fazer o balanço que pretendia do ano anterior. Porque o ano anterior não existe. O que existe é o que sou. É o que sobrei depois de tudo, é o que me tornei depois de tudo. O que existe são meus calos. E, o que virá, virá. Livre, senhor de si, independente de mim.

Tomara que esta carta lhe encontre  bem. Em algum lugar escuro que te ajude a medir a minha (c)alma.

Tomara que esta carta lhe penetre a centelha e que se misture com suas próprias reflexões.

Um grande abraço.

A amiga de sempre,

miss demoiselle

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About Tâmara Abdulhamid

palestina, engenheira e blogueira… …mas, é muito injusto uma vida inteira para viver e me definir por linhas. Por isso, espalho pedaços de mim em vocês, nas linhas, naquilo que invento e chamo de amor. Por isso existe o café. Para que você entre, me abrace, se aconchegue, converse e deixe o amor acontecer. De qualquer jeito, do jeito que couber, do jeito que for.

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