Pétalas a Jaya

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Jaya, minha querida.

Há tempos que eu, à hora da poda dos meus jasmins, venho para a varanda pensar. Manuseio com cuidado cada um dos meus botões, extirpo as pragas, diminuo o que é seco, recolho as pétalas caídas. No meio desse ritual, me transporto a João. Penso nele em cada um dos meus dias, e em como me sinto seca sem suas doses.

João para mim é colo. Sinto-me aconchegada em suas conclusões. Compreendida em seus versos negros. Minha escuridão nele encontra alento. Existem lugares da minha alma que são tão escuros quanto seu grafite, muito embora essa varanda de madeira branca e jasmins, reflitam a minha devolução à vida. Só sei ser cor, depois de ser dor. Só sei passear em violetas, cravos e lírios depois do inverno. João entende minhas flores que nascem depois das dores.

A ausência dele me perturba a alma. Passo em uma frequência de dias banguelas em frente à sua casa. Sempre paro. Avisto sua horta bem cuidada, seus tocos de charuto pelo chão. A denúncia de presença, mesmo que um profundo e estático silêncio paire por todo aquele lugar.

Deixei, em um desses dias, uma caixinha de tons pastéis com laçarote azul em cima da caixinha de correspondência. É claro que fiz um barulho, algo sapeca que chamasse a atenção dele. E fui antes que me visse. Em uma última olhada para trás, mais adiante da horta, uma fraca luz veio do interior da casinha de madeira. Sombras de vida lá dentro ao redor de uma mesa quente, com bolo de mate e café. O interior alegre que mantém João para dentro.

Veja você, querida, minha perturbação é senão egoísta. João está pleno. Abandonou o grafite e deixou o sol e a chuva envelhecerem a cadeira de balanço do exterior. Mas, por dentro, João compõe outros versos, outra cor de letras. Essas ele não mostra, são de uma coletânea particular, em tons de hortênsia.

Quando hoje, à mesma hora da poda, o mensageiro de João passou ligeiro dizendo ao ares que tinha bilhete pra você. Logo reconheci a resma de papéis negros enrolados em ráfia seca. Sorri. Sorri imenso, querida. Soube que suas letras, desembrulhadas, haviam enchido de lirismo um pedaço da alma daquele velho. Soube que suas líricas haviam feito João sentar-se em sua cadeira novamente e notado quão velha estava aquela madeira e que precisaria de reparos.

Sorri e sentei-me. Deixei que o sol se fosse no meu céu e resplandecesse apenas em seu quintal; que as rosas vermelhas se abrissem em seu caminho, querida. E, pus-me a observar a lua sorrindo no lugar da sua boca, seu coração devolvendo o amor.

Sua sempre,

miss demoiselle

 

 

 

Pétalas para Jaya Magalhães, das Líricas.

Poesia que a gente faz com os Lápis de João.

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About Tâmara Abdulhamid

palestina, engenheira e blogueira… …mas, é muito injusto uma vida inteira para viver e me definir por linhas. Por isso, espalho pedaços de mim em vocês, nas linhas, naquilo que invento e chamo de amor. Por isso existe o café. Para que você entre, me abrace, se aconchegue, converse e deixe o amor acontecer. De qualquer jeito, do jeito que couber, do jeito que for.

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