Janela Quente

“A janela também tem pálpebras para aceitar lentamente a rua.”
Carpinejar 

Eu estava em frente a sua janela e parecia um bêbado tolo segurando aquele telefone como se fosse um pedaço dela. Estava morrendo de medo de que ela se desfizesse para sempre, assim que desligou o telefone na minha cara. Medo de que ela se desfizesse para sempre como o efeito daquele álcool no meu sangue. Segurei o aparelho nas mãos o mais forte que pude para que ela não se fosse. E, depois, eu o quebrei como se ela pudesse ver o que fiz e, sentir a dor do aparelho desfigurado na minha frente. Queria que fosse ela, queria desfigurá-la para sempre, queria amá-la, possuí-la. Queria matá-la. Eu cheguei a lhe dizer isso e, talvez tenha sido por isso e, pelo ódio acumulado por mim nesses anos, que a tenha feito desligar na minha cara. 

É isso que odeio nela, seu senso de humor fraco, pobre. E, também odeio o fato de que ela nunca me amou como eu a amo. Eu queria sacudi-la e fazê-la entender o meu desequilíbrio, mas ela não compreendia. Vivia tentando se entender, se escutar, se isolar, se comunicar e me deixar de lado, como se sua vida fosse a peça principal do teatro e eu um figurante passageiro e bêbado.

Eu queria beber vinho em seus lábios rubros e beijar seus olhos pretos de lápis borrado. Eu queria aquele olhar esnobe que possuía quando fumava seu cigarro e me olhava por cima, com ar de nobreza. Queria envolver sua cintura e mergulhar aquele corpo macio no meu.  Eu queria estar tonto ao lado dela, mas agora só me restava quebrar o telefone e ficar sem notícias.

Eu nunca entendi sua necessidade de vários amores, assim como ela nunca entendera a minha obsessão. Eu estava viciado em observar sua janela e ficar horas parado congelando no frio apenas para ver sua sombra no quarto. Às vezes eu via um par de sombras e tinha medo de que fosse verdade, então eu bebia mais e fingia para mim mesmo que eram os meus turvos olhos embriagados que me vaziam ver assim. A minha santa deusa, o meu anjo assexuado, o cerne do meu desejo, da janela me olhava e desligava a luz. Me deixava pobre, me deixava nu.  Tinha prazer em me fazer coitado, em me fazer amante de longe, em me provocar, em me esquecer. E eu, um louco apaixonado, um triste abandonado, gritava a todo pulmão e dizia que a amava. Eu estava sóbrio e estava bêbado.O frio cada vez mais dolorido.

Ela dizia que meu amor era demais e que ela não o merecia. Mentira. Isso era a desculpa que ela usava para alimentar seu vício pela liberdade e seu pouco caso com o amor. E dizia que eu bebia demais. Desculpa. Ela era mestre em inventar motivos de não me amar, mas eu não podia arrancar sua alma de meretriz e as doses de álcool que me deixavam insuportável. Ela era assim e nada a faria mudar. Nem o meu amor. Eu a amava embevecidamente.

Da rua, como de costume, ficava a observar. E, a ouvir o som da triste melodia francesa que saia pela madrugada de sua janela. Quantas vezes eu já beijei aquela boca debaixo daquele som, quantas vezes a amei em francês… Minha dor era tão triste quanto aquela voz, tão sofrida quanto aquela letra. Aquela rua tão triste e tão cinza e aquele quarto lá em cima, tão quente, tão meu, tão ontem.

O meu amor por ela dói e a falta não me conforta;  a bebida só me esquenta enquanto passo as noites a observar e virou a minha doença assim como os seus amantes. Ela não sabia se prender e jamais seria só minha. E eu adormeci naquela calçada em frente a sua janela quente. Abraçado a um pinot noir  caído, o líquido beijando o chão, e eu adormecido pelo efeito do vinho.

Escutei um chocalho de longe e reconheci sua tornozeleira cigana naqueles pés que tanto beijei. Ela se aproximou e fiz-me de desfalecido. Ela se abaixou e, jogando algumas moedas no chão, sussurrou: “só tenho migalhas, meu senhor”. E saiu a andar, chacoalhando o pé pintado de vermelho e aquela cintura que delineava a minha paixão. E eu sabia que era verdade. Que dela só viriam pedaços. Pedaços de outros amores e pedaços de amor por mim.

miss demoiselle

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About Tâmara Abdulhamid

palestina, engenheira e blogueira… …mas, é muito injusto uma vida inteira para viver e me definir por linhas. Por isso, espalho pedaços de mim em vocês, nas linhas, naquilo que invento e chamo de amor. Por isso existe o café. Para que você entre, me abrace, se aconchegue, converse e deixe o amor acontecer. De qualquer jeito, do jeito que couber, do jeito que for.

2 thoughts on “Janela Quente

  1. […] Isso era a desculpa que ela usava para alimentar seu vício pela liberdade e seu pouco caso com o amor.

    Há muito tempo que não me encontro como me encontrei aqui nesse texto seu…

    um beijo!!

  2. Desse tipo que coleciona amores, que os trata como carta recebida, lida, rasgada ou guardada em uma gaveta reformada, o mundo está cheio. Mas tenhamos cuidado com esse passageiro que na nossa vida só está de passagem mesmo. Porque é ele que retalha o nosso coração. E este danado que se abre facilmente tem estar inteiro para aquele amor verdadeiro e ímpar, que muitas vezes entra por janelas.

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