Minha querida,

Em dias de 2013.

Minha querida,

Recebi sua carta como quem recebe flores sem ocasião. Uma alegria danada.

As coisas andam boas por aqui, digo, comigo. No geral, tem me faltado companhia. Não a física, sabe? A de pensamento. Essa é complicada de encontrar.

Você disse que notou um certo descontentamento na minha última carta. Não é nada, fique tranquila. É aquela mania que eu tenho, você bem conhece, de ficar pálida quando eu tento analisar a nossa sociedade.

Nosso querido poeta já dizia que nós somos um tanto hipócritas querendo analisar o mundo sentados atrás da máquina de escrever, lembra? Eu concordo um tanto com ele. Mas, mesmo assim, não deixo de tentar entender.

Tenho percebido que finalmente entramos na era do prazer. Só que me assusta. Vis que são os homens, eles vão além do prazer: são sádicos. E aí a tolerância das pessoas tem diminuído. E isso tem influenciado o número de assassinatos. O sujeito se irritou, ele mata. É como se à custa da sua vida, o outro terá prazer. Era assim na nossa época também?

O engraçado é a tolerância aumentar à proporção que se aumenta a facilidade de informação, o estudo, a instrução das pessoas. A gente luta contra o preconceito, tenta ensinar a beleza do distinto. E, o que é que se vê? Protestos cheios de fúria, de todos os lados. As pessoas estão impacientes, cheias de fúria. Um furiazinha interna, mal resolvida. Uma desconexão com a compaixão.

A gente tem acreditado em mais vidas para viver. Tem vivido duas vidas nessa aqui. Uns pregam ser do céu e para o céu, mas querem acumular riquezas. Outros fazem caridade como forma de acalento da consciência, mas vivem uma outra vida inconsequente, luxuosa, futilzinha.

Temos uma nova classe social, os alegrinhos  Ficam contentes com qualquer coisa, sorriem para tudo e todos e possuem a carinha maquiada e roupa cara. Não discutem com ninguém, não contrariam. Sorriem para os intelectuais que por sua vez não toleram esses. É tudo uma rodinha gigante. É um mundo que gira em torno de vários umbigos, o meu, o seu, de todos.

Incrível como as eras mudam. Eu pensava que fosse apenas saudosismo meu, implicância minha com essa geração. Que estava sendo uma daquelas pessoas que diz que a sua época era melhor, mais respeitosa e mais intelectual. Mas, temo, queridinha, dizer que isso é verdade sim. De fato, as coisas mudaram e não é só impressão não. Vivemos em uma era mais umbilical.

Acho sim que a gente passou a viver mais pra gente, sabe? Não tenho visto mais os mesmos programas na TV, os mesmo comerciais. Hoje em dia tem muito humor, muito deboche. E não confio muito no humor em excesso. Acho que humor demais é a beira do caos. Quando a gente coloca piada demais, não enfrenta a realidade, foge dela e acaba ridicularizando uma coisa que é séria, tocante, que é espiritual ou da alma. E, esse processo de ridicularização do que é importante é, senão, uma forma de não encarar nada de frente.

Acho desespero rir de tanta coisa, rir de tudo. Lembra quem disse isso? E olha que ele não viveu agora. Olha só a televisão, queridinha. Vê? Tudo tem graça. Até aquelas coisas mais preciosas que a gente cultivava e era quase proibido rir, hoje já virou piada. Viraram piada os cultos religiosos, a fé, o amor pelo futebol, o corpo da mulher, a opção sexual, as raças das pessoas.

É que a gente é dada à melancolia, né? Fico pensando se isso combina com a minha alma: colocar tudo em piadas. Acho que não conseguiria escrever uma linha. A poesia é justamente filha do recolhimento, da reflexão, do que é dor, do que é bálsamo da dor. Tem melancolia na poesia. E a nossa sociedade hoje é muito sanguínea, muito livre, muito hoje.

Mas, em compensação, temos coisas que mudaram pro bem também. A moda está mais leve hoje. É claro que nossos clássicos permanecem e aposto somente neles quando tenho aquelas reuniões importantes que eu, entre parênteses, prefiro me sentir mais segura a passar um ar mais in (como dizem os estrangeiristas!). A moda no geral está colorida, larguinha, estimulando mais o estilo, sem escravizar muito. A moda também está um pouquinho assim: insolente. Rasgou muito molde que se usou no passado.

As artes, nem comento. Lembra quando a gente lia Huxley e ficava imaginando aquela sociedade maluca que aprendia tudo por repetição, que abominava o envelhecer e não lia livros? Sabia que estamos assim hoje? Você não ia acreditar, irmãzinha.

A literatura está vendendo muito receitas de sucesso, de enriquecimento. A seção de auto-ajuda nas livrarias é abarrotada de gente. Receita pronta e rápida, né?

Já as músicas são um capítulo a parte. Todas repetitivas, sem letra alguma, com sons que nem posso chamar de onomatopeias  porque elas nem sequer representam algo. Nada. Cheias de nada.

E eu me preocupo muito. Fico pensando na facilidade que as pessoas tem de se divertirem assim, com o vazio.

Então é isso. Escreva-me dizendo um pouco de tudo, de você. Vou gostar de ler. Preciso de coisa boa para me ocupar do tempo. Você quando eu leio me sinto mais perto do que eu gostaria que fosse o mundo, sabe? Queria que o mundo fosse como você. Assim, amplo e bem educado. Veja só que devo viver meio solitária por aqui. Por onde anda?

Escreva rápido, não me esqueça. E a proíbo de fazer humor com tudo o que eu disse.

Um beijo da sua,

miss demoiselle

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About Tâmara Abdulhamid

palestina, engenheira e blogueira… …mas, é muito injusto uma vida inteira para viver e me definir por linhas. Por isso, espalho pedaços de mim em vocês, nas linhas, naquilo que invento e chamo de amor. Por isso existe o café. Para que você entre, me abrace, se aconchegue, converse e deixe o amor acontecer. De qualquer jeito, do jeito que couber, do jeito que for.

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