E se eu me derreter?

Tenho medo de apagar essa luz e a minha poesia sumir com medo do escuro. Tenho medo de ligar essa sauna e meus versos evaporarem com o suor. Tenho medo da minha alma escorrer por esse ralo.

O medo todo é essa mania besta de me dar por inteiro, de voar de peito aberto e asas largas. Mania besta de ser cem ou não ser nada.

Eu vou com tudo, eu me deságuo no seu colo. Eu espero muito, eu desabo. Eu choro e choro. Por isso tenho medo. Medo de amar em outra língua que não seja a minha, de não entender os seus porquês  Eu amo melhor no meu idioma, eu entendo melhor o que sinto dizer quando piso em águas conhecidas.

Tenho medo de sumir dentro de você – e pra me achar depois, rapaz? E seu eu nunca me achar?

Tenho medo de desligar a TV e despixelizar o amor. De que ele suma em mil pedacinhos no ar e nunca mais se juntar. Medo de amarrar o cadarço e não conseguir mais sair. Medo dessa minha alma entupir o ralo, medo de afogar o peito, de ficar sem jeito perto de você.

O medo todo é porque o chiclete não dura a vida inteira, igual às borboletas que voam no meu estômago quando você me beija a ponta do nariz. Elas vivem o tamanho de vida delas, não o meu. O medo todo é porque a luz viaja na velocidade dela, atrevida e independente. O medo todo é pelo escoamento da água, fluida e incompressível, que não aceita intromissão, que não se altera, que me quebra quando bato de barriga.

Teimosia minha de temer mais do que amar. De indagar e não viver. De não soltar. Teimosia minha que não me solta, que amarra minhas pernas com um nó, sem dó.

O medo todo – essa teimosia demente que não me deixa perceber que ao invés de cem ou nada, bastasse um pouquinho, um abajur, uma fresta, uma porta semi-aberta; bastasse um ralo com gradinha. Tudo o que coubesse minha alma aos poucos, tudo o que me portasse. Tudo o que permitisse que eu fosse, aos poucos, me derramando em você. Teria tanto espaço para a minha alma que não caberia o medo. Ele e as poesias se escorreriam e dançariam para sempre.

Eternamente, sem medo.

miss demoiselle

 

 

 

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Crédito | Foto  de   Plinio Pierry | facebook.com/pliniopierry 
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About Tâmara Abdulhamid

palestina, engenheira e blogueira… …mas, é muito injusto uma vida inteira para viver e me definir por linhas. Por isso, espalho pedaços de mim em vocês, nas linhas, naquilo que invento e chamo de amor. Por isso existe o café. Para que você entre, me abrace, se aconchegue, converse e deixe o amor acontecer. De qualquer jeito, do jeito que couber, do jeito que for.

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