Ma Maman Chérie

 Teu olho que brilha e não para
Tuas mãos de fazer tudo e até
a vida que chamo de minha
– gadú –

 

Minha querida mamãezinha,

Sempre te escrevo e não encontro nunca as palavras. Elas somem junto com o meu afã de traduzir o que sinto. E, o que sinto é tão grande, mamãe, que não cabe na vida. Nem mesmo nas palavras.

Eu sinto que as coisas ficam pequenininhas perto de você. Elas me escapolem dos dedos de um jeito que não consigo aparar. Não as entendo, juro. Eu preciso delas pra falar de você, pois foi você quem me ensinou a escrever redações. Foi o seu sopro que deu vida a muitas obras minhas, e à primeira delas. Não era pra elas se comportarem assim, me desculpe, mamãe.

Eu canso de procurar as palavras. Eu caminho melhor nos sentimentos, aqueles que me prendem a você. Sentimentos que você brotou aqui nessa alma minha e fez germinar você mesma.

Quando eu canso das palavras e volto pros sentimentos, vejo o porquê das palavras sumirem. Somem porque o que nos une é mais até do que sentimentos. É cordão umbilical. Envolve carne, sangue e vitamina. É uma troca tão profunda de organismos vivos que não haveria mesmo de caber em textos.

O que me une a você envolve coisa orgânica, fluidos. Envolve uma troca de energia vinda de você, que me abasteceu de vida por meses. Você depositou vida em um corpo em formação a cada instante e trabalhou dia e noite para que fosse formado.

Eu penso que só você poderia me ter me dado à vida. Porque você é forte. E doce. E sempre será mais forte e mais doce do que qualquer pessoa que eu conheço. Quem é forte assim consegue dar vida, porque tem altruísmo demais por dentro. Consegue dar a mão para ajudar no caminho. Só quem é forte assim, dá tudo de si para um bebê – ensina tudo o que sabe, oferece seu corpo magrinho pra abrigar e esquentar uma vida e depois dá asas, sem se preocupar se vai haver gratidão, retorno ou fruto. Você acreditou na sua semente, mamãe. E ela germinou, você viu?

Eu sempre penso que você é uma pintura, mamãe. Seus olhos castanhos contra o sol derrubam no chão a menina que você é. Sua risada ecoa a voz de uma jovialidade latente, de uma alma leve e profunda. Sempre te chamam de menina, não é mesmo? Sempre confundem sua idade e eu acho um charme seu jeito elegante de negar que parece menina e dizendo que isso é um exagero, mas solta um sorriso tão bonito e aperta os olhos de um jeito que desmente você. Você é uma menina, mamãe.

Eu acho bom demais quando te confundem comigo e nos fazem irmãs. Porque aí percebo que você não só me deu vida. Eu ganhei a sua metade, você como outra parte de mim. Que divide o fardo e ri demais das graças que a vida faz. Você me entende bem mais do que eu mesma e simplifica a confusão que faço com as pecinhas da vida. Você e eu, a gente fofoca, ri e chora e decora o quarto.

E, falando nessa coisa de decorar, eu já te falei mãezinha, de como adorei a forma como você decorou o meu rosto com os seus olhos, seu queixo fino e o jeito de sorrir que sempre nos misturam nas fotos? Você me enfeitou de você, o mais eu poderia querer? Por isso que você briga tanto comigo que só uso colares pequenos e brincos discretos. É porque eu me pareço com você e não preciso de muito mais adorno. Você pintada em mim basta.

Sabe, também, que eu sempre quis uma boca bonita como a sua, né? Só que aí ninguém ia aguentar a minha metidez. Então, pra compensar, você pegou o seu pedaço mais bonito de alma e me deu, e agora eu sorrio como você. Ou talvez tenha sido por imitação. Não sei. Só sei que é você comigo, na vida, quando sorrio. Esse seu jeito de sorrir de verdade, por inteiro, com o rosto todo. Seu jeito de iluminar a sala com o sorriso largo.

Acho que quando você ganhou esse nome cheio de luz tenha sido uma profecia. Colocaram você no mundo para iluminar. Ah, mamãe, nesse momento você está balançando a cabeça e achando isso um exagero, né? Mas, é verdade, mãezinha, você é poesia pura. Devia você mesma ver o que eu vejo: seus olhos contra o sol brilham demais. Você fica linda e me ilumina.

Aí eu penso que você já é um exagero sendo tão menina assim, me ensinando a nunca sair dos vinte como você fez – parando o tempo misteriosamente. Mas, quando eu penso isso e penso na pintura linda que você daria, eu também me assusto, porque você tem uma pose, mamãe, que até assusta. Você é pose de elegância e tem horas que eu pintaria sua alma como uma senhora. Porque é assim que você enfrenta a vida e suas escuridões. Com elegância você passeia pelos vales e pelas sombras. Você é de uma força rochosa, de uma fé inabalável e de uma segurança serena, tão serena, que acalma. Sua alma de menina dança ciranda com essa senhora fortaleza que tem dentro de si.

Foi com você, afinal, que aprendi a caminhar no deserto. A navegar nas minhas emoções, a revolver as portas da minha mente. Você me ensinou a dançar balé no asfalto quente, a encontrar rosas no deserto. Você me ensinou a não temer o meu lado mais negro, mas a entendê-lo e aprimorá-lo, e torná-lo capaz de viver nesse mundo.

Foi com você que aprendi que é na diferença entre as pessoas que se esconde a beleza da vida. Que as diferenças enfeitam o mundo, e que a tolerância pertence só aos fortes.

Você incentivou todas as minhas tentativas de felicidade e me apoiou quando metade delas deu errado. Você me ensinou a recomeçar e me disse que o passado é apenas um lugar de aprendizado e não de fantasmas.

Pois é, mamãe, eu levei um tempo para tentar ler a sua alma. É que você se derrama tanto quando sorri ou quando fica brava que eu achei que fosse fácil ser você. Mas, sabe o que aprendi com você? Que as pessoas transparentes demais, que se deixam derramar facilmente são tidas como simples e fáceis de serem desmontadas. Aí vem você e me mostra que só consegue ser transparente as pessoas que caminham com graça dentro de si mesmas. Que, só colocam para fora as expressões de um sentimento bem aconchegado dentro de si. São pessoas que, como você, se conhecem e buscam se conhecer tanto por dentro que se derramam para fora. Que são cheias de novidades, que tratam suas escuridões, que valorizam suas curvas de alma.

Você, mamãe, é pousada de si mesma. Você se aconchega bem demais.

Já te falei que temos mais uma vida pra viver, né? Porque eu fiquei adulta quando você escondeu as lágrimas no dia em soltou a minha mão naquele apartamento da cidade nova. Foi quase um parto, um jeito dolorido de cortar o cordão. Foi tão doído que nem o pedaço que sobrou dependurado em mim conseguia me confortar. Fomos desligadas de uma forma violenta e sobrou só aquela toalha com o seu cheiro, que mantive no mesmo lugar por meses. Aquilo foi um parto, e foi a segunda vez que você me colocou no mundo. Só que na primeira vez, eu era você, você era pra mim. Seu colo, seu leite, suas noites sem sono. A segunda vez foi vazio. Fiz pirraça com a vida e não desfiz as malas porque não queria chegar. Você é a minha estação de trem, o meu chegar. A primeira pessoa que conheci na vida, quando cheguei aqui. E, ali, caminhar era me despedir. Era dar passos, quando o desejo real era de voltar.

Você chorou no ônibus, não foi? Eu chorei o ano inteiro. É porque foi contra a nossa natureza, o buraco não cicatrizava. Só que a culpa foi minha que demorou para entender que a distância não era um buraco negro que suga as intermediações para sempre. Eu descobri que você, mesmo indo embora, jogou pelo caminho pedacinhos de pão na estrada de volta me dando pistas de como trilhar o pedaço de chão que me levaria de volta a você. Quando leu João e Maria para mim era pra isso, não era? Para eu me lembrar que você iria passar uma vida me dando pistas de como viver melhor essa vida e, para me ensinar que sua mão, mesmo longe, sempre iria marcar o caminho da volta. Por isso você não teve medo de me mandar voar.

E, o mais bonito é que você e eu ficamos mais lindas assim, fortalecidas com a distância. Porque a gente descobriu que o cordão de carne também era também de espírito. E era feito de mistério e sangue, de coisas que não se desligam e não se perdem assim. Que era feito de dor e refrigério, de uma ligação eterna.

Você e eu ficamos mais metade.

Por isso, mamãezinha que te digo. Ainda temos mais uma vida para viver juntas. E não estou falando de reencarnação, até porque a gente não acredita nisso, né? A vida outra que temos é que agora, mamãe, a gente vai se encontrar, como em um elo. Eu estou começando a alcançar a sua idade. Vou me encontrar com você mo meio desse círculo, porque você me fez adulta. Agora posso ver com seus olhos de vinte, de trinta e de “entas”.

Ou você acha que não noto como vou me parecendo cada vez mais com você? Se por imitação ou mágica, não sei. Mas, estamos nos fundindo. E é agora que a vida começa. É agora que preciso de você para enfrentar o que você já bailou com destreza e suavidade.

Mãezinha, eu ia te escrever, mas eu acabei te pintando. Porque vi que as palavras iam ser pouquinhas pra dizer tanto. E, eu teria mais de uma vida para colocar no papel. Pelo menos com a pintura, cada um te escreve com os próprios olhos, de um jeito próprio. Até porque seria um pecado guardar você em papel, limitar sua definição.

Mas, agora é que percebo, mamãe, que aquela médica, inteligente que só, cortou e pegou aquele pedaço de cordão que era seu, que nos ligava, enrolou e colocou ele em mim, bem no centro da minha barriga. Para que eu sempre me lembrasse que, na vida, se não houvesse você, haveria buraco.

 Que você e eu sejamos sempre. E, seja eu, um pedaço de você nessa vida.  

 

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About Tâmara Abdulhamid

palestina, engenheira e blogueira… …mas, é muito injusto uma vida inteira para viver e me definir por linhas. Por isso, espalho pedaços de mim em vocês, nas linhas, naquilo que invento e chamo de amor. Por isso existe o café. Para que você entre, me abrace, se aconchegue, converse e deixe o amor acontecer. De qualquer jeito, do jeito que couber, do jeito que for.

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