Tarde.

Gerárd não esboçou nenhuma palavra enquanto fitava o corpo inerte adormecido naquele caixão. Não era preciso muito esforço para se lembrar daquela risada gostosa, que pertencia a ela, e que parecia agora ecoar em sua mente. Aquela risada que sempre lhe fazia rir, mesmo se não tivesse graça. Agora, não era mais do que um eco.

Gerárd não conseguia demonstrar nenhum sentimento em seu olhar porque estava muito ocupado tentando fazer tudo aquilo ter sentido.  Naquele momento, teria que entender que acabara ali as noites de paixão que tanto adorava, não haveria mais aquela pequena mão agarrando a sua enquanto passeavam pelas ruas e, iria enterrar para sempre o infinitos beijos que ganhava naquele colchão imenso que havia comprado e que passaria a ser grande demais para abrigar o seu corpo solitário.

Aquele corpo. Ah, sempre adorara aquele corpo desenhado e finalizado com uma pele macia e cheirosa. Sempre se animara ao vê-la chegando e trazendo consigo aquelas curvas delicadas que se aninhavam perfeitamente em seu corpo grande e atleta. Agora estava inerte, deitado, e não conseguia conceber a ideia de não apertar mais aquela cintura e segurar seu rosto. O rosto. Agora calado, embora dormindo num estado de graça, já não lhe sorria mais. Aquele sorriso jamais lhe abriria novamente e o olhos – tão vívidos – jamais o veriam, cerrados para sempre. Como conviveria com isso? – perturbava-se.

Ah, menina – Gerárd pensava baixinho ao lado do caixão – porque é que você foi sem mim? Quando foi que tirei meus olhos de você, para você fugir assim? Tinha muito amor em mim por você, tinha muito amor do meu jeito. Aquelas nossas intermináveis discussões – por que perdemos tanto tempo? – você me amando com palavras, e eu te amando segurando sua mãozinha. Era amor de todo jeito, por que é que não via? Menina, minha menina, por que tantos porquês agora, quando você não vai me responder com aquela vozinha engraçada, subindo e se aninhando no meu colo feito uma coisinha, feito minha metade?  Você foi e eu deixei. Está tudo bem aí? Não consigo te proteger mais, nem te segurar, nem andar ao seu lado na calçada. Não vá se molhar à toa, você tem sinusite braba. E o cinema, minha menina? Como é que eu vou fazer sem você pra se empolgar com fellini e allen? Como é que vou entender o que só você via naquela película, minha florzinha.., como é, me diz..? Eu queria mais uma xícara com você, mais um final de semana na frente da tv, mais um daqueles bicos seus, das suas resmunguices.

Gerárd pensava e ninguém ouvia. O mundo era nii ao seu redor. Seus pensamentos se tornavam lágrimas sobre o corpinho inerte, e banhava a pétala daquelas flores. Lágrimas pesadas que em nada se comparam ao orvalho. Este, tão leve, banhava e brilhava as pétalas das flores que também tinham tanta vida. Por isso a chamava de flor. Agora, aquelas lágrimas não tinham nada a ver com a cena, e muito menos aquelas flores fétidas, que carregavam o cheiro da morte, do escuro, da distância. Da saudade que iria fazer morada em seu peito.

Homem bom que Gerárd era, não merecia a dor. Ele, que nunca pensara em deixar que nada cruzasse seu caminho, esse  l’oiseau verde que não tinha dono, que não tinha caminhos. Apenas trilhas que ditavam a direção dessa sua alma grande, incapaz de viver em um lugar só. Queria dominar o mundo, explorar as selvas, viajar mundo afora, voar longe, explorar e…e, não sabia que seu destino estava cruzado. Nunca entendera a dualidade de sua alma imensa ter sido presa por uma gaiolinha pequena, de personalidade forte – grades de aço – mas de portinhola escancarada. Gerárd nunca soube bem o que fazer com ela – ir ou ficar – era uma dúvida cruel demais para quem só queria voar sem mapas.

Só que agora não tinha mais nada. Um amanhã vazio para colocar na mochila, uma foto e um recadinho apaixonado. Esse era o caminho a ser explorado – tentar, sem ela, entender quem ele era. Gerárd vomitou. Ali mesmo, na sala fúnebre, seu estômago revirou. Na tentativa de evitar a tristeza, deixou que ela morresse sem experimentar a plenitude de sua alma. Ela tentara entrar, revirar aquele miolo duro, sem sucesso. Agora, que ela havia partido, sua vontade era de rasgar as tripas da sua alma sobre aquele caixão, sacudi-la de volta à vida, e entregar sua alma, seu corpo, seus dias, sua metade devida. Era tarde demais e Gerárd vomitou novamente.

Repousou a mão sobre a sua testa e, acariciando-a, enterrou os filhos imaginários que fizeram juntos, as viagens que não aconteceram, os beijos, os abraços, o seu para sempre.

 

 

 

 

 

photo by: http://www.flickr.com/photos/docsearls/

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About Tâmara Abdulhamid

palestina, engenheira e blogueira… …mas, é muito injusto uma vida inteira para viver e me definir por linhas. Por isso, espalho pedaços de mim em vocês, nas linhas, naquilo que invento e chamo de amor. Por isso existe o café. Para que você entre, me abrace, se aconchegue, converse e deixe o amor acontecer. De qualquer jeito, do jeito que couber, do jeito que for.

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