A morte de um amigo.

“E hoje, um dia solitariamente agradável, era dia para ter em meus olhos  – com franqueza e gratidão – aquilo que se tornara a caligrafia de minhas mãos.” (J.R.)

 
 

Havia resolvido passar uns dias em Bay Smooth.

Não é meu. Tomo emprestado quando quero ler os meus pensamentos e me rabiscar um pouco. Cheguei e tudo já me esperava, como se eu tivesse saído dali há dias. A cadeira rangente, o bule verde descascado, o cheiro do mar e aquele azul mordaz. O vento me recebeu de forma hercúlea, me agarrando pelos cabelos. E o silêncio veio ao meu encontro. Entendi que estava a sós.

Vários dias foram passando de forma desobediente, sem deixar rastros. Não, minto. Litros de café iam sendo consumidos, e inúmeras folhas de papel formavam uma pilha desonrosa no canto daquela saleta. O tiquetaque ria-se de mim, fumando e jogando a cabeça para trás, num gesto zombeteiro de puro escárnio.

Numa tarde, que já estava se pondo, senti que algo estava estranho como uma desordem, um desequilíbrio de rotação. Não optei por outra coisa senão quebrar o jejum e assim, quem sabe, o contato com uma outra pena, me trouxesse aprumo. Pena que outrora manchou tantos papéis comigo.

Não pensei muito. Irrompi em seu sítio que era próximo dali. Um lugar modesto, sem charme, mas que sempre me fora conforto. Avistei quase de perto, e parei. Quis ir mais devagar, observar esse lugar um pouco mais, outra vez. Casebre de madeira, a horta bem cuidada, e algumas pontas de charuto jogadas no chão. Tudo como sempre. Fui me aproximando e já anelando por um café recém passado. E o abraço bom, e o saber de ser compreendida. Havia  chegado no sítio de João Romova. Aquele gordo amigo, rabugento e solitário. Aquele conforto.

Bati na porta, gritei por alguém. Ri de mim mesma. Como poderia gritar por outro “alguém em casa” justamente no sítio daquele velho solitário? Gritei por ele, e só. Algumas tentativas adiante e dei as costas, com a decepção estampada, arrastando meu corpo de volta para Bay Smooth. Quando o costumeiro – e nunca consertado – gemido da porta se fez presente. Olhei rápido para trás, com um sorriso que estivera ali há pouco, mas não reconheci a figura.

Era um moço até, magro como a vida. Uma figura estranha, detida num par de óculos, que possuíam olhos familiares…e meus pensamentos foram interrompidos por ele.

Havia resolvido passar uns dias em Bay Smooth e foi lá que soube que meu amigo havia morrido.

Em um silêncio grafite, sozinho – partira. Foi como ficara o meu coração, rabiscado por um lápis cinza recém apontado. Sinto muito – eu sinto muito mais, meu jovem. E me arrastei, finalmente, para dentro do casebre. Sem João, sem café, sem aquelas lamúrias.

Li suas letras, para senti-lo uma última vez, porque seria diferente depois disso. Engoli cada uma das suas palavras, tocando naqueles rabiscos. E encontrei a seda que tecemos juntos, a quatro mãos – a duas penas.

E teci uma nova seda, com cores azuis-mordaz, marrom-café, verde-bule e rosa-papiro. Fiz aquarela nas suas cinzas.

Saudades para sempre.

Sua amiga,

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About Tâmara Abdulhamid

palestina, engenheira e blogueira… …mas, é muito injusto uma vida inteira para viver e me definir por linhas. Por isso, espalho pedaços de mim em vocês, nas linhas, naquilo que invento e chamo de amor. Por isso existe o café. Para que você entre, me abrace, se aconchegue, converse e deixe o amor acontecer. De qualquer jeito, do jeito que couber, do jeito que for.

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