Os gritos de Marília

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Marília desenha os traços dos que a traçam. Dos que colocam uma perna para ela cair. Quer silenciar a voz dos que falam. Dos que gritam que se cansaram. Marília anda e anda muito. Anda até não poder mais. Anda e escuta a música que lhe fala aos ouvidos. Um mistério isso é (…) o fato de que o passado fala a Marília. De que o passado é tão alto quanto aquela coisa que se desfazia de si. No passado. Ele é grande e irrepreensível. O passado adora trair – atrair; fazer cair, Marília. Ele abre os buracos. Ele se ri. Enquanto ela aguenta tamanha safadeza, tamanho escárnio doentio, ele canta. Canta aos ventos, grita e desafina. Desafina tal qual o seu pobre lamentar que se arranha sem entender, que se cansa buscando o porquê, que acentua, que pontua, que não diz o quê. Que busca o quê. Que fica a mercê dos gigantes que, nessa hora, a invadem o pensamento e a amedrontam. Assaltam a sua paz, a dizem menos. Dizem-na durezas, jogam em sua cara.

É claro que se rende, e talvez sempre será rendida. Mas, tenta buscar antes que se canse. Tenta não mostrar que cansou (…) eles se cansaram. Depois de se cansarem, irão odiar. Como todo mal precede um mal pior. É assim. Marília até pinta os lábios e a cara. Mas, não adianta. Não adiante, um a desmascara. Não adianta. Adiante, um a faz tropeçar. Segue assim, Marília, tentando falar, tentando engolir. Seguem assim, sem querer entender, só a proferir seus gritos contra ela. Só a dizer o tamanho que são (…) esses gigantes que a querem fazer cair.

Marília coça as orelhas e tenta fazer o avesso da trama. Tenta se esconder. E a água precisaria estar mais gelada, e a água não levaria embora; não demora e já está a enlouquecer tentando responder o que esta triste canção a pergunta; a insulta. Perturba a tristeza do vento, o peso que esse momento deixa sobre Marília. Até tentou fazer com que o vento voltasse para sua habitação, mas ele ama por demais aquilo que o distrai – ama a sua impaciência em abanar o seu pescoço.

É claro que não será assim sempre. Que um dia o vento se umidificará e o lamento não mais agridirá o seu coração. Que um dia o pranto se converterá e que as pernas dos que antes se prontificaram em ser o seu tropeço, um dia serão as suas pontes. Que um dia as adversidades, de tão contrárias, a guiarão para o que Marília chama de certo. De peculiar. Para aquilo que um dia Marília sonhou ter. Um tesouro.

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About Tâmara Abdulhamid

palestina, engenheira e blogueira… …mas, é muito injusto uma vida inteira para viver e me definir por linhas. Por isso, espalho pedaços de mim em vocês, nas linhas, naquilo que invento e chamo de amor. Por isso existe o café. Para que você entre, me abrace, se aconchegue, converse e deixe o amor acontecer. De qualquer jeito, do jeito que couber, do jeito que for.

10 thoughts on “Os gritos de Marília

  1. Gostei. Gostei tanto que me empolguei e nem percebi que lia em voz alta, com a voz bem alta aqui no quarto (que eu não posso nem fechar a porta). Os seis gatos pingados de familia cozinhando lá embaixo. Cozinhando e dizendo aos berros pra que eu possa escutar :”Essa menina não tem Jeito!”

    Um beijo!
    Um beijo!
    Um beijo!
    Um Beijo e um queijo!

    • Nanda, Nanda…

      Era pra ser lido em voz alta mesmo, como um berro, um suspiro violento. Porque os gritos que Marília colecionava dentro de si, precisam sair …serem libertados para deixá-la respirar.

      Obrigada por ajudar Marília.

      Muitos beijos e queijos,

      miss

  2. Não, Helena não tem irmãs. (Mania besta essa de advogados de ficarem definindo a vida dos outros né? hehehe).

    Miss, kd tuas letras que estão pedindo para nascer?

    • Helena, Marília…tanto faz… se irmãs ou não, se inimigas, se complementos… tanto faz, João..

      A vida já tem muitas definições, deixe os personagens livres para serem o que quiserem ser… sem reservas demais…

      Seu café anda lhe tornando rígido, meu amigo… tome um chocolate, é bom, é doce…

      Um beijo,
      da miss

    • A culpa é de seus textos que são belos como um sonho, e sua voz ser doce como um play de balé.

      Eu leio seus textos pra me sentir mais viva. Para comer um doce, de vez em quando.

      Um beijo,Jaya

      miss

  3. Sinceramente…. por mais ridícula que pareça esta minha opinião, mas…. Marília é a irmã sofrida de Helena. Esta desencanou, está livre de seus horrores; aquela ainda não, afunda-se em um mar de considerações.

    Talvez me odeie após este comentário, porém…

    … beijos!

  4. Ultimamente ando lendo uns textos, e me espantando em como tem muito de mim espalhado em parágrafos. Não foi diferente com Marília. No fundo, moça, será que a gente sabe ser cópia? Será que todo mundo sente a mesma coisa, apenas deslocando lugares e intensidade? Não sei.

    Sei que da arte de fazer das pernas ponte, ao invés de tropeços, eu tenho começado a aprender. Meu tesouro eu já sei onde está, falta fazê-lo meu, comigo.

    Um beijo, daqui da Bahia.

    • Jaya,

      Isso é pura verdade… a gente se acha em tantos lugares.. eu mesma já me vi sentada no banco da sua praça a esperar que a tontura passasse. Eu já me vi em sua casa, na casa de Romova, na casa de tanta gente boa que parece falar a mim…tão diretamente.

      Fico feliz por já saber onde está o seu tesouro. Fazê-lo seu será o fim do arco-íris.

      Um beijo goiano,
      com café e bolo de fubá.

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