Caligrafia a Duas Mãos

minhavaranda

  

 

Duas colheres de pó, açúcar e água fervente. Ali, em frente a um coador de pano e o revigorante cheiro de café, aspirei aquele aroma e o senti entrando e se abrigando em mim, levando embora todos aqueles sentimentos de um dia ruim, deixando apenas seu gosto forte, marrom. Eu o queria armazenar para sempre, porque ali parecia estar tudo o que eu precisava naquele momento. Nem tudo. Na realidade o café me confortaria pelas horas à frente que prometiam passar de forma silenciosa.  Apenas eu e eu, naquela varandinha aconchegante, mas repleta de histórias. Sentada, respirando o universo que construí ao meu redor eu vejo marcas, tintas, madeira, flores e tecidos. E não havia como negar, com um pequeno gole e um sorriso no canto da boca era inevitável perceber como aquela varanda estava repleta de mim. Repleta dos meus ais e dos meus prazeres colecionados. E aquela brisa? Parecia querer dizer algo ao trazer o perfume dos jasmins presos às treliças. Foi assim que me lembrei, de um modo quase secreto, e leviano até, daquela música que me trouxe as memórias mais confusas e alucinantes. Memórias de um proibido esquecer. De um proibido querer. Eu podia ver e sentir aquela cena novamente como se tivesse acontecido ontem, quando sentada naquela campina de grama baixa – e verde brilhante – deixei o tempo acolher meus pensamentos. Deixei aquele cenário ditar o meu futuro e foi, então, que me vi. Em um flashback, um momento sóbrio. Sou artesã do que vivo, pontos e laços, eu talho o meu viver. Lixas ou pincéis, eu decoro meus momentos. E hoje, um dia solitariamente agradável, era dia para ter em meus olhos, com franqueza e gratidão, aquilo que se tornara a caligrafia de minhas mãos.

 

 duasmaos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

João Romova e Miss Demoiselle tem idades completamente diferentes e, como não bastasse, estilos também. Mas num dia, desses comuns demais para qualquer um que ouse escrever, resolveram juntar suas letras. Enquanto um trocava as vírgulas, outro acentuava, um cortava os t’s, outro coloca os pingos nos i’s. Nessa história de trocarem vogais e consoantes, brincando de criarem novas palavras, deram-se a si mesmos  o que tinham, suas palavras.  
E assim nasceu um texto.
 

 

 

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About Tâmara Abdulhamid

palestina, engenheira e blogueira… …mas, é muito injusto uma vida inteira para viver e me definir por linhas. Por isso, espalho pedaços de mim em vocês, nas linhas, naquilo que invento e chamo de amor. Por isso existe o café. Para que você entre, me abrace, se aconchegue, converse e deixe o amor acontecer. De qualquer jeito, do jeito que couber, do jeito que for.

7 thoughts on “Caligrafia a Duas Mãos

  1. Cristiane,

    da forma como você descreveu tornou mais aconchegante e lírico ainda.

    é..a música é daquelas que te nina e, ao mesmo tempo não te deixa dormir de tão envolvente e morna que é…

    obrigada pela análise gentil mineira. tipicamente, gentileza mineira.

    miss

  2. Delicadamente lindo. Um café é sempre bom, se for preto, forte e meio amargo, acompanhado de um pedaço de queijo mineiro, hum, tudo de bom! E se for numa varanda, numa tarde azul, vira poesia.

    Fiquei pensando que música seria esta que despertou em ti, como a madeleine de Proust, sentimentos tão controversos e este risinho no canto da boca.

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