A vida ‘tá pobre

[“uma mentira contada bem freqüentemente,
torna-se verdade” (Lenin)]

É isso aí. Um mundo de focas. Um mundo que me afoga fora de si. Ostra feliz não faz pérola, já dizia o não-poeta, já dizia o silogista, já dizia quem dizia. O mundo dá voltas, a vida ‘tá pobre, mas a fofoca é nobre. A vergonha ‘tá cara, cada vez mais rara, perdida ou não procurada. O amor congelado, o cheiro do ralo. Fede mais que eu. Fede mais que o seu. Se mistura com Morpheus, se amalgama com rimas que não foram baratas. Um mundo meio vivido, mas dividido em ser, em não ser e ter, em ser (humano). Prefiro ser Ovídio que cria no amor personificado do que crer no amor sem alma. Prefiro ser poeta do que o poeta que todo mundo entende. Prefiro ler no escuro. Ou ser triste do que a alegria das cores de fevereiro. Eu prefiro ser alegre ao o pássaro que canta lentamente. Eu prefiro ser agosto ao tão esperado cavaleiro. Eu prefiro ser Julius a ser Augustus. Eu prefiro ter trinta, ao invés de morrer no último. A vida anda tonta, anda capenga, não anda certa, anda zonza. A vida anda invadida, vasculhada, oprimida, xeretada, enxertada na outra, dividida a troco de pressão, morta a troco de você. A vida anda o outro. E a fofoca, nobre. E a hipocrisia, mórbida. E a inveja, praga. E a pisada, lenta. A respiração ofegante. A mão na cabeça. O tiro na nuca. O quarto de cinco paredes. O engenheiro. O médico que corta seu semelhante. O mendigo letrado de chinelos calçados e o advogado alinhado e de honra calçada no chinelo. O nome e a mentira. A fama sem sucesso. O plástico prótese sem vida . O um milhão sem o Nobel. O bigbrother, o faustão, o pânico de ver tevê, a novela, o novelo, o embaraço, o nó. Já dizia o silogista que melhor é não dizer; é morrer o melhor caminho de caminhar sozinho. Quem é o escritor, quem lê o que pensa? Quem pensa o que lê? Quem pensa no que fala, não fala. Quem não fala, sábio é. Quem é sábio, não se tem. Quando não se tem, se fofoca. Se fofoca, é nobre. Se é nobre, bêbêbê. Um milhão, despir-se da vergonha, despir-se da roupa, despir-se do nome. A fome tem etiqueta. Aos otários, tevê. Aos desabrigados, notícia. Aos famintos de arroz, meio ambiente.  Sem universo, sem expressão, sem conteúdo, sem arte, sem vida, sem sal. Univers(-idade) sem galáxia, sem pensamento, sem mundo, sem sophia, sem verbalização, sem universo (deveria ser então, ‘Mediocr-idade’).  Mais vale ser alto, do que o baixo prepotente. Mais vale ser pobre, do que o orgulhoso. Mais vale ter espírito do que a carne apodrecida. Mais vale o mendigo achinelado que o advogado no italiano. Mais vale o cheiro do ralo exposto de Veneza, que o cheiro de vômito das bulimias de Milão. Mais vale ser triste do que ter a vida pobre. A vida de ostra feliz…sem pérola.

miss-demoiselle3

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About Tâmara Abdulhamid

palestina, engenheira e blogueira… …mas, é muito injusto uma vida inteira para viver e me definir por linhas. Por isso, espalho pedaços de mim em vocês, nas linhas, naquilo que invento e chamo de amor. Por isso existe o café. Para que você entre, me abrace, se aconchegue, converse e deixe o amor acontecer. De qualquer jeito, do jeito que couber, do jeito que for.

14 thoughts on “A vida ‘tá pobre

  1. Hum… imensas saudades daqui! Saudade de você, do texto, do clima desse blog…
    Belo texto Tâm! Na verdade esse teu texto me deu uma saudade, saudade de poesia, dos tempos de escola, das filosofias, da graça de perder a noite, de morrer de rir de conversar pessoalmente, de sorrisos no vidro do carro… Da graça de viver…. È, mais falta gente, mas falta tempo, mas falta conciência pra reconhecer isso…
    Beijos, saudades suas!

  2. (confesso que demorei bastante tempo na leitura desse post)

    Sobram pessoas no mundo e realidades alternativas para nos apegarmos mas falta a NOSSA vida em foco. Além disso, ainda nos perdemos nas dicotomizações do “é” ou “não é”. Mas discordo de você quando diz que a vida “tá” pobre. Pelo contrário, a vida está mais rica do que nunca. Os horizontes são infinitos para aqueles que o conseguem enxergar. As possibilidades estão aí e, ainda que tenham me vendido mais uma doce ilusão, prefiro acreditar nela a ver o mundo tomado por valores maiores ou menores (culpa do meu romantismo exarcebado).

    Ainda assim, existem muitas pessoas no mundo e, consequentemente, muitos idiotas.

  3. (confesso que demorei bastante tempo na leitura desse post)

    Sobram pessoas no mundo e realidades alternativas para nos apegarmos mas falta a NOSSA vida em foco. Além disso, ainda nos perdemos nas dicotomizações do “é” ou “não é”. Mas discordo de você quando diz que a vida “tá” pobre. Pelo contrário, a vida está mais rica do que nunca. Os horizontes são infinitos para aqueles que o conseguem enxergar. As possibilidades estão aí e, ainda que tenham me vendido mais uma doce ilusão, prefiro acreditar nela a ver o mundo tomado por valores maiores ou menores (culpa do meu romantismo exarcebado).

    Ainda assim, existem muitas pessoas no mundo e, consequentemente, muitos idiotas.

  4. Mas tu sabes que meu foco em meu site é o lado positivo e bom das coisas, o que se torna um exercício que trago para a vida. Mas após a leitura de seu texto fiquei com um pensamento meio bobo na mente: Com pérola ou sem pérola? O que é melhor? To pearl or not to pearl? rs Francamente não sei.

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