Amores Antigos

“Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta”
(Coisas de Cecília)

 

ANDO COM SAUDADES. Saudades angustiantes. Saudades doloridas. Do tempo em que os comunas e modernistas eram exilados. Da época em que, mesmo com Collor, mesmo sem leite, tinha-se iogurte. Época dos versos. Do exagero de Drummond que fazia drama, tinha sete faces, queria mudar o mundo, adorava sua mãe, contemplava a rosa do asfalto e, por fim não sabia porque escrevia. Saudades dos amores exagerados de Vinícius e suas namoradinhas. Aquelas sem as quais se quer morrer. Amores também singelos e sinceros, assim como o ufanismo dos Andrades. Saudades também das saudades de Jobim. Saudades que sabiam que sem ela não há paz, nem há beleza mas, só tristeza e melancolia…saudades dos abraços apertados, e dos milhões de beijinhos na boca.

 

Ando com saudade daquela matemática estranha de Getúlio, que colocou rodas no país. Deveras deixa saudade a matemática da primeira série, aquela que não tinha maldade, nem injúria…e a falsidade não entrava na porta do parquinho (nem na fila do lanche!). As valsas dos olhos meus nos olhos teus. As mulheres que Tim jurou amar por toda a vida, em cada despedida, em cada verso. Deixa saudade a luta de Lula, o ideal de quem acreditava, os gritos, a barba e as (nove) unhas sujas. Já os ternos italianos do Congresso não matam a saudade, não lembram a luta de ontem, pelo contrário – fazem esquecer.

 

O exílio e o choro do poeta. Afinal as aves de lá não gorjeiam como cá. E, o que me diz dos homens elegantes de outrora? Aqueles gentis senhores conquistadores, com pitadas de pimenta (fundamental!) e quilos de açúcar (..!). Homens fortes, cavalheiros e amáveis! Conquistadores das jovens damas que também deixam saudades. Damas cobertas, bem vestidas. Jovens senhoritas com pitadas de fofocas na janela, acrescidas numa massa de ternura, postura e educação. O que dizer das cartas escritas entre os amigos, do bate-papo no fim do dia, do barzinho da família? Deixam saudades. Assim como os ternos do Congresso, o e-mail colocou a carta no baú, a vodka mergulhou a sanidade no vômito, e a vulgaridade, prendeu a família em casa.

 

Quem não se lembra do Miguelim de Guimarães? Rico menino paupérrimo, que não engolia os fatos, mas analisava. Que perdeu seu melhor amigo, perdeu o oratório, mas não a fé. E por isso, ganhou novos olhos no final do livro. Livro (…) isso me dá saudade também. Os jovens boêmios – mas sabiam literatura. Jovens boêmios, doentes e poetas (então não eram doentes!). Azevedos e Andrades e seus olhos de ressaca, seus peitos rebentados à fibra, suas lápides e as virações. Jovens pensadores – morte prematura de ambos. Do corpo e, da juventude que pensava.

 

Qual doce expectativa da família quando o rádio anunciava a Segunda Guerra Mundial, ou quando dava-se o novo capítulo da novela. Novela. Grande novelo, grande trama. Nascida na Escola do Romantismo – envolvente, emocionante – dá saudades, sim. Hoje ligo a TV – e dessa coisa não tenho saudade, nem apreço – e vejo pernas, peitos, bundas. Vejo mais! Vejo bocas, línguas, dentes. Vejo muito mais! Vejo adultério, mentira, sexo. Vejo fantasia, vejo manipulação da massa. Mas, não vejo pensamento, nem amor, nem amizade. Enganam-nos colocando o coitado dos velhos poetas – que tentam descansar em paz – para cantarem ao final de cada capítulo, tentando refrigerar a mente dos espectadores. Espectadores não esperam nada. Assistem. Mudos, calados, convictos. Certos de que vivem num mundo merda. Num mundo cinza, num mundo nublado. Nuvem que pairou sobre o céu do nosso Brasil e trovejou sobre as roseiras, levando os melhores e deixando as chamadas artes folclóricas – sem estilo, sem traço. Mas, muito ritmo, muito balanço, muito popular. Os assassinos da Academia de Letras. Os famosos. Os MC’s da vida e suas Mulheres-frutas.  Levando os melhores e deixando o imediatismo, os mensageiros instantâneos. Deixando calos no cérebro, asfixia na alma, manipulação em série. Genocídio.

 

Falando em genocídio, lembrei-me do estadista alemão. Dizimou tantos pobres judeus e negros, mas o fez com sinceridade. Os nazistas de hoje mataram o pensamento, o livre-ser e estão matando a saudade. E, em meia a tantas saudades…De poetas mortos e de poesias vivas (da realidade remota). Do passado latejante, de um provável morto futuro. Em meio a devaneios de um suposto Brasil em versos que já não existe mais, de um puro amor que ficou nas canções de melodias doídas. Em meio a todo esse saudosismo, não serei eu, autora de uma conclusão – de um xeque-mate – causadora de mais uma morte de pensamento, de mais uma falta de saudade. Mesmo com saudade de um passado que não deveria ter passado, deixarei você, caro leitor, da mesma forma que me sinto agora  – um momento de serenidade, em meio ao caos social. Obviamente, para deixar saudades…  

 

 

 

 

 

 

 

Anúncios
This entry was posted in Blogroll by Tâmara Abdulhamid. Bookmark the permalink.

About Tâmara Abdulhamid

palestina, engenheira e blogueira… …mas, é muito injusto uma vida inteira para viver e me definir por linhas. Por isso, espalho pedaços de mim em vocês, nas linhas, naquilo que invento e chamo de amor. Por isso existe o café. Para que você entre, me abrace, se aconchegue, converse e deixe o amor acontecer. De qualquer jeito, do jeito que couber, do jeito que for.

22 thoughts on “Amores Antigos

  1. Você decretou a morte dos românticos inverterados, Taty (e pela seleção natural, seremos extintos da face da Terra em pouco tempo mesmo).

    É estranho pensar que, quanto mais gente há no mundo, menos parece exstir. Falta vibração, falta vontade, faltam ideais.

    Às vezes penso que sobram passatempos no mundo atual e que se tivéssemos menos coisas a fazer, talvez as fosse diferente. Fato é que sempre existiram idiotas e provavelmente sempre existirão, mas um idiota esclarecido ao menos argumenta e transforma a vida em algo mais interessante. Idiotas que tomam o poder ideológico sem ideologia continuam sendo idiotas, só que sem a necessidade de discutir.

    Nós temos mais pessoas, só que a Terra e o Brasil não estão mais povoados; estão mais lotados.

  2. Sabe, Cristiane, é prazeroso ter leitores assim como você, que gastam tempo em analisar os elementos inseridos no texto…Fiquei impressionanda como pinçou Miguelim e entendeu o porque de eu ter colocado ele no texto…Assim, como quando citou Madeleine…os reconditos do passado…as coisas boas…da infância…

    Obrigada!

    “Mas mais sorriu, apagara-se-lhe a inquietação. Disse: — ‘A gente tem cada cisma de dúvida boba, dessas desconfianças… Só pra azedar a mandioca…’ Agradeceu, quis me apertar a mão. Outra vez, aceitaria de entrar em minha casa. Oh, pois. Esporou, foi-se, o alazão, não pensava no que o trouxera, tese para alto rir, e mais, o famoso assunto” (Primeiras Estórias, G.Rosa)

    Abraços!

  3. Sim, entendi o seu grito, que também é o meu e de muitos amigos.

    Você contrapõe a beleza do sertão de Minas e a pureza do menino lindo-Miguilim à esta sociedade caótica. Mas eu não quero falar do “lixo” hoje. Miguilim, Nhinhinha e outros personagens Roseanos despertam em mim coisas boas e simples. Eles me trazem saudade de um tempo outro que não conheci, apenas senti.

    Também me apaixonei por Miguilim. Ele suscita lembranças de infância, dos nossos recônditos como vc disse, tal qual a madeleine de Proust…

    Abraços,

  4. Querida Cristiane,

    Miguilim é um apego a um lugar meio oculto dentro de nós,não é mesmo? Eu me apaixonei por ele…

    Então você entendeu meu grito! Que bom! Muitas pessoas não entenderam. Aliás, alguns dos leitores me acham uma saudosista autista, mas isso não é verdade…eu apenas não me conformo com o nosso lixo de hoje. Simplismente não!

    Um dia escrevo mais sobre isso.

    Muitíssimo obrigada pela sua agradável visita!

    Abraços!

  5. Belíssimo texto! Parabéns.

    Adorei o que disse sobre Miguilim.

    Também não vejo nada de bom, nada que valha a pena. A teledramaturgia hoje é lixo! Lixo que corrompe, lixo que manipula, lixo que envergonha e faz de seres humanos deploráveis figuras notáveis e formadoras de opinião. Lixo do lixo! Asco do asco! Didi, Xuxa, Faustão e muitos outros, a lama, os vermes de uma sociedade doente e à beira da morte. Tristeza!

    Belo, belo texto!

  6. Taty,

    você quase escreveu OUTRO texto 🙂

    as pessoas mais sensíveis sentem saudade do que foi bom e acabou…e as pessoas fortes prosseguem para tentar fazer pelo menos a sua parte de um chamado ‘futuro bom’…

    Saudades de você.

    Beijo

  7. Minha querida Solange,

    O presente sempre é a sua visita e seus comentários recheados de docilidade que me fazem menos longe de você…

    Completa razão que tem..aproveitaremos dessas bençãos do presente, vislumbrando o futuro. Mas, a dor do que passou, perdura.

    Mesmo assim,não paremos de caminhar!

    Um beijo grande!

  8. Ah, grande saudade… Saudade de ser chamada para dançar, uma lenta música em que cada passo demonstrava as batidas do coração. Saudade de moços com flores, de passeios de mão, das poesias em meio as serenatas… ah, grande saudade, saudade de poder discutir idéias, de ter a força do povo uma satisfação pessoal. Saudade da poesia em meio ao caos, de nao ouvir mais “Quem você está pegando”, mas sim ver meu nome nas poesias de rapazes apaixonados com serenatas e muitos bombons… Saudade daquela época, mas vergonha deles, por hoje nos verem assim!
    Saudade estava eu, de comentar aqui Tâm, belo texto, acho que a senhorita e telepata!
    Beijos

  9. Minha linda, mas um presente, uma viagem lendo e tentando ficar mais perto de vc…

    Acredito que se vivemos cada dia, observando as belezas e as bençãos espalhadas em tudo e em todos, veremos que podemos driblar um pouco da saudade. Mas sei dessa dor que sente agora, mas logo terá saudade disso tudo também.

    Então, vamos que vamos! Tudo passa!

    Um abraço ensolarado e saudoso!
    Solange

  10. Prezado Ronaud,

    Uma honra para mim ter um leitor como você! E, o interessante é que você concluiu algo que eu percebi quando terminei o texto: o nosso parâmetro é o que passou…e sempre – somos fadados – a sentir saudades do passado.

    Obrigada pelo elogio e por chamar minhas linhas tortas de poesia.

    miss

  11. Eric,

    Sim, Engenharia MESMO! 🙂
    Mas, o bom da vida é a diversidade, o hobbies, as distrações e os amolecimentos da dura rotina!

    A sua indagação é a mais pura verdade – no futuro sentiremos saudade daqui que foi bom hoje…

    grande abraço!

  12. Saudade faz bem pra alma .Amadurece e nos faz vibrar.
    Enfim , saudade nada mais é do que presença do ausente. Foi este o seu enfoque . Texto salpicado de doçura e encantamento pelo que ficou , mas prossegue.
    Adorei.

    Beijo grande ,

    Amalina

  13. Sou mais filósofo do que qualquer outra coisa, se é que eu seja alguma coisa… E seus textos além de belos, são tão profundos. Incitam a refletir. A despeito da beleza presente em sua mensagem, prefiro acreditar que AGORA é a HORA. A vida está lá fora, a beleza está lá fora, o encantamento, a poesia, as oportunidadades estão ai, aqui, em todo lugar. Tenho certeza absoluta que deste momento também, sentiremos saudades. Porque também a miséria de espírito acompanhou a humanidade por todos os tempos, ela não exclusividade dos tempos modernos. O pessimista vê a poça dágua no chão, o otimista vê as estrelas refletidas nela.

    Sua poesia por exemplo, é um ótimo exemplo que deste momento também eu e seus outros leitores sentiremos saudades! 🙂

  14. Lendo o seu texto me pergunto: Esta menina estuda na área de exatas mesmo?
    É impressionante a habilidade que você tem em cativar os leitores em seus textos.
    Obrigado por mais esta leitura prazerosa. E aí pergunto:

    Será que no futuro sentiremos saudades dos amores de hoje?

    Eric.

  15. Sortudo e contente por ser o primeiro a comentar em “Amores Antigos” e poder lembrar do que foi bom e inesquecivelmente delicioso!

    Como a sua escrita é envolvente e viva! Você realmente é uma poetiza! Quanta vida e quanta sinceridade! Você não tem vergonha de expressar aquilo que sente! Uma verdadeira poetiza.

    Meus sinceros e imensos parabéns!

    Rodrigo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s