Entrevista com Drummond

 

Entrevista com Drummond

 

 

“Só resta ao homem/ (estará equipado?)/ a dificílima dangerosíssima viagem/ de si a si mesmo.” (C.D.A.)

 

 

  

  

 

MARCAMOS DE NOS ENCONTRAR na velha praça central de Itabira. Perguntei-lhe, por telefone, se queria que o encontro fosse no Rio de Janeiro. Prontamente, o mestre me disse que não, que se fosse falar comigo de sua vida, que fosse em Itabira, para ela ser mais que uma foto na parede.

E, lá estava eu, com minha caderneta na mão treinada para ser mais rápida que os pensamentos do gênio. Pracinha antiga, aquele verde antigo, igrejinha aos pedaços, moleques correndo. Velha Itabira, casa do mestre…!

De repente, cruza a esquina um senhor calvo, com óculos fundo-de-garrafa, rugas que contavam estórias. Carlos, Drummonds – todos de Andrade – e a velha camisa xadrez cobrindo a leve corcunda. Nos apresentamos – eu palpitante – e começamos a conversar. E, ele não tirava o olho de minha caderneta verde-limão.

MissDemoiselle: Como o senhor se sente em relação à vida?
CarlosDrummond: Olhe para mim, donzela. Velho, careca e cego. Não há vida. Há um relato sobre ela. E foi o que eu fiz durante todo o meu período existente.

MD: Não acha que viveu?
CDA: Acho que participei de fragmentos da vida de cada eu. O eu-torto recém-nascido e condenado; o garoto que espiava aqueles homens que espiavam as mulheres; o jovem que admirava pernas e não pensava; o homem do bigode – sério, simples, forte. O confuso filho de Deus, o fraco indagador. O Raimundo revolucionário, o velho jornalista boêmio. Minha cara, como vê, não vivi muito. Mas fui muitos em um.

MD: Qual desses era o melhor de você?
CDA: Estranho perguntar isso. Porque nem eu sei.

MD: O que o senhor acha do mundo de hoje?
CDA: O jornalista ou o poeta? Se for o poeta, cada Carlos tem uma visão. Quanto ao velho jornalista resmungão, ele perdeu o bonde e a esperança. Um vez, inclusive, descobriu que o melhor era ser pornográfico (risos) mas vejo que o melhor é ser mesmo poeta. Sabe por quê? Todo poeta analisa o mundo de forma irônica. Mas somos muito hipócritas. Usamos o papel e a maquininha (outros, a pena e o papel) para escrever um mundo o qual analisamos de fora, criticamente. Donos da razão. Afagamos nosso ego tentando salvar o mundo vil (dirigdos por vis homens) sentando numa cadeira. Quanta pretensão! Mas, o mundo continua mal.

MD: Tem medo da morte?
CDA: Não. Essa transição é um mistério que leva ao outro. Levou Clarice e Veríssimo. Em meses, pode levar o fôlego desse velho aqui. Só quero paz.

MD: O que te prende a Itabira?
CDA: Tristeza, orgulho e ferro. Aquela vida sem mulheres e sem horizontes, mas muito melhor do que o Rio (mas, não melhor do que as meninas na Copacabana!) (risos).

MD: Para terminar deixe alguma coisa.
CDA: Estou tentando deixar alguma coisa desde que nasci. Estou morrendo e não sei se consegui. Talvez ninguém lerá meus poemas, nem se lembrará de mim. E isso é paz – não saber. Deixo pra você, em particular, a crônica leve do velho escritor. Aquele viver tranquilo que vivi. O papel e a máscara. O poder de fugir do mundo. E você vai caminhar muito ainda, menina, com essa cadernetinha verde-limão.

(…) Fiz sete perguntas, para tentar falar com cada Carlos.
Ele se foi, sumindo no não-horizonte de Itabira,e ainda não sei com qual Carlos falei. Mas sei qual Carlos ele deixou em mim…
  

 

[Foto tirada por Cristiane Magallhães] 

 

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About Tâmara Abdulhamid

palestina, engenheira e blogueira… …mas, é muito injusto uma vida inteira para viver e me definir por linhas. Por isso, espalho pedaços de mim em vocês, nas linhas, naquilo que invento e chamo de amor. Por isso existe o café. Para que você entre, me abrace, se aconchegue, converse e deixe o amor acontecer. De qualquer jeito, do jeito que couber, do jeito que for.

23 thoughts on “Entrevista com Drummond

  1. Não se desculpe. A internet tem destas coisas. O que é público, é público…

    Agora, me bateu uma dúvida terrível, acho que esta fotografia não é minha e sim do meu amigo Cláudio (http://www.partesdesign.com.br/ms/). Estivemos juntos no Memorial em 2004 e ele fez algumas fotos e eu fiz outras. Olhando agora no Flickr as que eu fiz não vi esta que está no seu blog. Acredito que ela seja dele. Desculpe-me, mas tenho quase certeza que esta imagem é dele e não minha.

    Você escreve divinamente! Parabéns. Voltarei outras tantas vezes.

    Abraços,

    Cristiane

  2. Prezada Cristiane,

    Primeiramente, muito obrigada pelo comentário em meu blog. Muito rico e muito verdadeiro.

    Agora, quero tirar uma dúvida e me retratar… Aquela foto que encontrei na rede foi tirada por você,não é mesmo?Reconheço que devo-lhe desculpas, por não ter citado a fonte (porque também desconhcia a mesma)..INfelizmente, essa é a desvantagem da internet. Pessoas profissionais como você, que expoem seus belíssimos trabalhos, não ficam isentas de serem ‘citadas’ sem serem referenciadas. Sou adepta de valorização ao profissional, estou me retratando e mais – citei seu nome como referência. Aliás, devo dizer que acabei de visitar sua exposição no flickr e fiquei impressionada…belíssimas fotos!

    Bom, quando quiser comentar ou ler meus textos no Letras&Flores, sinta-se a vontade!

    Um grande abraço.

  3. Romova,

    eu até tento não ter estilo, mas não o ter, é ter..!

    observou muitíssimo bem que o que parece é uma menina, atemorizada e atrevida, que observa o mundo de fora, pequena, limitada…

    enfim, apesar de minhas insatisfações com a poesia contida, adorei seu comentário! obrigada mesmo, porque é pouco comum as pessoas enxergarem o autor dentro do texto…ou pelo menos tentarem analisa-lo…

    o meu segredo é que estou profundamente contida nele…

    Abraços e espero seu comentário!

    Miss

  4. Pude ver o Drummond da minha Itabira antiga, com seus óculos que escondiam os olhos que viam como se não visse, sua magreza poética, suas mãos marcadas pelo tempo, sua voz aguda de itabirano. Vi o ferro empoeirando aquelas calçadas e as praças todas sem árvores, muito sujas, muito maltratadas, muito cinzas. Vi o Drummond menino, correndo na fazenda agora reconstruída, tal qual Robinson Cruzoé, e não era o Drummond antigo, era um menino negro que declamava esta poesia junto com outros Drummonzinhos (nunca vou esquecer este menino…) na ocasião do centenário do poeta, pelas ruas e espaços de Itabira. E me vi, também, desaparecida nas brumas com meu bloquinho imaginário anotando sensações e entrevistas que não aconteceram.

    Drummond desperta tanta coisa em mim, como esta fotografia acima, que tirei lá do Memorial na minha Itabira, com o poeta observando o Pico que não existe mais, assim como ele. O ferro de Itabira sustenta edificações mundo afora. A poesia de Drummond sustenta corações e inspirações mundo afora.

  5. (Como não poderia ser de outra forma…)

    Sabe miss, me assusta sua escrita.
    Porque eu vejo nela tanta poesia e, muitas vezes, espero ver uma menina, linda.

    Mas você teima em me assustar porque sua poesia é em prosa e, nas linhas nada retas, denuncia que há a nossa frente uma mulher.

    Deixe eu alongar minhas sensações deste último texto, quando eu estiver menos absorto, trago um comentário.

    PS: obrigado pela indicação do texto que, nesse teu jardim, é homenagem, da mais pura.

  6. Rodrigo,

    talvez ele não tenha padecido…existem poetas eternos, ensimesmismos eternizados…

    …já dizia o velho…

    Obrigada pela visita.

    Abraços.

    PS.: você é o Rodrigo que sempre comenta aqui?

  7. …fantástico! enquanto lia, quase me esqueci que o velho escritor havia padecido…

    continue escrevendo,por favor!

    abraço,missdemoiselle!

  8. Obrigada, tia Amalina e tio Istamir!

    Continuarei o caminho, rabiscando papéis tal qual criança, aprendendo a segurar o pincel, tentando colorir o que vejo…Eu, e minha caderneta verde-limão…

    É um prazer tê-los como leitores,e igualmente uma honra…

    Grande beijo…

    Tâm

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