Nakba anniversary at 60

(Se o vídeo não for visto, não haverá compreensão do texto.)

 

Ano passado, uma doce sehora, me disse: “Sem sofrimento não existe poesia. E a mesma dor que Gonçalves Dias sentiu por saudade de sua terra de aves gorgeantes, eu hoje sofro pela minha Palestina que um dia fui obrigada a deixar(…)”. Há um mês, um distinto senhor bradou teatralmente, na cozinha onde comíamos pizza: “A Palestina só não foi consumida até hoje por causa dos palestinos e seu conhecimento cultural invejável. Povo maiúsculo! Forte! Grande! Eterno..!”

Meu avô, homem sereno e carinhoso, não podia ouvir uma música árabe sequer que começava com suas palmas e danças. Seus olhos amorosos denunciavam sua tristeza por não estar lá, e fazia de cada dia aqui, um pedaço de lá. Meu pai, homem grande e doce, contador de histórias sobre a bela Palestina onde não mora mais…Sonhador e saudoso, gastou vinte a dois anos de sua vida, me contando histórias, me fazendo amar essa terra tão querida. Me fazendo palestina.

A geração passada era linda! Eles namoravam sob pôsteres dos comunistas, tinham sangue da tropicália nas veias. Mentiam – como disse a senadora Dilma Rouseff – para livrarem os amigos dos milicos. Viviam a história, vivam seus países, amavam as lutas. Vivam sob um porquê. Eles faziam tudo para não deixar a alma morrer.

E, hoje, acordei e me dei conta de algo – a antiga geração está nos deixando. E nos deixando com esses seres como nós, entusiastas imediatistas, desapegados, desrraigados, despolitizados, desaculturados, desinteressados. Eu tenho medo de viver em um mundo com essa nova geração.

Nova geração que solta fogos de artifício em comemoração aos 60 anos da criação do Estado de Israel, enquanto a velha geração palestina chora e se banha de cinzas, pela lembrança do Dia da Catástrofe. Uma comemoração israelense que custou a vida de tantos outros. Comemorar o quê? O que é que os isrealenses estão comemorando? Isso dá-se por não saberem o quanto doeu, há 60 anos, o exílio.

Os de hoje nunca serão como os de ontem.

Hoje, celebramos 60 anos da Nakba. 60 anos do ‘Dia da Catástrofe’. Mesmo tendo acordado triste  e com algum medo de que passemos a viver abandonados pelos verdadeiros lutadores, vou deixar essa músicas em homenagem a nós, palestinos, como memória bonita e doce saudade daquela terra e daqueles tantos que conhecemos (que hoje talvez não vivem mais) que amavam lutar por ela.

Somos palestinos. Povo maiúsculo, como disse aquele distinto senhor. Um povo que celebra 60 anos do exílio porque tem o que se comemorar. Tivemos 60 anos para não nos envergonharmos de um ano sequer. Sessenta anos de luta, de honra, de defesa, de amor. Sessenta anos em que a Palestina se tornou mais nossa. Muito mais nossa.

Peço a Deus que voltemos para lá. Terra querida que tivemos de deixar para trás. Por que as aves daqui não são como as de lá…

 

THERE IS NO ALTERNATIVE TO THE RIGHT OF RETURN
Statement, National Committee to Commemorate the
Nakba at 60, 15 May 2008

To the People of Palestine, Whether you live within the “Green Line,” in Jerusalem, the West Bank, Gaza, or in exile, you shall return, there is no doubt that you shall return. Today the skies will echo as you state with one united voice: “There can be no alternative to our return,” all sounds will melt away as your voice rises to say “There can be no peace without our return to our original lands and homes.
(fonte: eletronicintifada.net)

 

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About Tâmara Abdulhamid

palestina, engenheira e blogueira… …mas, é muito injusto uma vida inteira para viver e me definir por linhas. Por isso, espalho pedaços de mim em vocês, nas linhas, naquilo que invento e chamo de amor. Por isso existe o café. Para que você entre, me abrace, se aconchegue, converse e deixe o amor acontecer. De qualquer jeito, do jeito que couber, do jeito que for.

27 thoughts on “Nakba anniversary at 60

  1. João,

    Fui ao seu blog para um café e saí banqueteada…Perfeita descrição do que minha alma quis dizer nesta manhã…

    Apareça sempre para o café, mas ando meio parca de pó pois o trabalho anda me sugando…

    Abraços!

  2. muito triste!o pior de tudo e saber que estes dois povos se originaram de dois irmãos.Infelizmente a imparcialidade é uma das peças, do grande quebra cabeça!Mais acredito que tudo se resolverá no devido tempo!

  3. Prezado Ricardo,

    Eles podem comemorar. Se o país já fosse deles e se apenas morassem judeus em Israel. Mas, existem palestinos sem nação lá dentro, por causa dos mesmos que ontem celebraram aniversário. Não tenho nada contra judeus,pelo contrário, acho um povo bom, povo bonito.Mas tenho contras sim contra governo isrealense e o sionismo internacional que promove a alienação e a manipulação do bem alheio.

    A Globo não deveria dar esse enfoque todo a Israel. Isso é terrível de ver. O país também é meu, mas aniversaria só tristeza e um futuro sem vista, que não se sabe quando será seu de volta, esse país.

    Quanto ao meu medo, caro Ricardo, me incluo nesta lista sim. Não vivi a história de meu pai, nem de meu avô. Mas, me excluo da lista quando se trata em buscar origens.

    Abraço.

  4. Simples, eu quero saber porque Israel não pode comemorar o aniversario do pais deles e porque vc tem medo do futuro poder da nação, que vc fala que sera governada por essa geração nova. vc se inclui nisso?

  5. João Romova,

    Concordo, a Globo deveria ser parcial. O problema é que não é 😦

    O Globo Reporter vai mostrar a festa de comemoração dos 60 anos da Criação do Estado de Israel… Mas, essa festa custou tanta lágrima palestina…Pra que isso,entende? Pra que cutucar a ferida…?

    Ajudo sim a promover o debate…! Espalharei o seu link aos meus amigos!

    Obrigada pelas visitas e comentários!
    Está me apoiando bastante! 🙂

    Um grande abraço!

  6. Svety minha querida,

    Ainda não lhe respondi o email, perdoe-me!
    Tenho tanto a dizer, tanta saudade para colocar em palavras que me perco e acabo desistindo. Dói ficar longe de você, das pipoquitas, das conversas…

    Obrigada pelo apoio em palavras ao povo palestino!

    Um grande beijo minha querida!

  7. Kalilzinho…

    Saudades de ti, querido!
    Surpreendeu-me sua visita! Ontem foi a Bina, hoje você! 😉

    Obrigada…Falar da terra sempre é doído e gostoso!

    Um fortíssimo abraço!
    Volte mais vezes!

  8. Uma visão pessoalizada, passional de tudo… é isso a que se resume a globo.

    (Sem simplesmente escolher lados, é preciso ponderar. Ainda mais num assunto tão complexo em que PESSOS, repito, PESSOAS, estão envolvidas.)

    abraço pra ti miss…

  9. São anos de história, sofrimento, tristeza.. mas o povo palestino é um povo tão forte, “maiúsculo” (como já foi dito) que sobreviveram, lutaram e lutam até os dias de hj. Acredito sim, que este povo volte à sua terra natal, não por justiça, mas para unir um povo maravilhoso que se preocupa com suas tradições e pessoas. Um dia conheci uma família palestina( pela 1ª vez) e confesso que me surpreendi com tanto carinho, garra, lealdade, alegria, amizade, companherismo.. são tantas as características que se fosse falar todas ficaria o dia aqui com características de um povo que é único. Hoje estou longe da minha grande amiga(palestina), morrendo de saudades, mas feliz com seu sucesso. Espero não ser esquecida por ela. Na verdade não acredito que isso vá acontecer, pois como já disse antes, esse povo é amigo e verdadeiro. Saudades!

  10. Prezado Ricardo,

    não é justo cobrar entendimento sobre esse conflito tão antigo, mas também não é justo você querer que eu explique anos de história, correto?

    Dê uma lida sobre o conflito palestino-isrealense, e me disponho a sanar dúvidas.

    Se puder também especificar o que não entendeu, agradeço também!

    Abraços
    Volte sempre

  11. Prezado Mohamad,

    Muito prazer.
    Infelizmente, eles ainda acham motivos para comemorar. Assista ao GloboRepórter de hoje para ver os jornalistas palhaços na Globo, no picadeiro.

    No final das contas, a bariga que dói, ou a lágrima que rasga o rosto, não é da Globo…

    Abraços.

  12. Exatamente! Me desculpe a palavra aqui mas que merda é essa que Israel tá comemorando? Comemorar a morte de quantos palestinos?Eles contaram?

    Sou amigo do Naser.Parabéns.

  13. Fernandim,

    posso dizer que seu comentário me tocou profundamente.

    como sinto falta..e me dói aqueles dias na caixa d’agua, os corredores, os deliciosos ovos de páscoa…esse ano foi tão ruim não trocar ovo com você… 😦 aliás, foi ruim demais termos nos separado, meu amigão!

    obrigada pelo carinho, pelo comentário…

    Beijão!

  14. Prezado Naser,

    Honra minha tê-lo aqui se estreando como leitor do blog! Você é palestino também? De onde?

    Infelizmente, não é mesmo, Naser? Os melhores estão indo embora…É muito difícil saber que o futuro estará nas mãos de gente descompromissada.

    Seu comentário foi muito gentil.

    Abraços.

  15. Nossa…
    Seus textos me emocionam!
    Sem contar que também ando muito emotivo, principalmente de uns tempos pra cá…
    Queria muito poder te encontrar nos corredores da facu, como antigamente, para voltar a dizer “quanto tempo…” como se apenas um feriado tivesse nos separado.
    Ler seus textos me traz de volta as boas recordações, os bons momentos, até mesmo a época do chat v0.01 que nós conhecemos tão bem!
    Foi um passado que tenho certeza que guardaremos na memória, e celebraremos sempre, sempre que possível assim como é celebrado o aniversário de Nakba, mesmo que para nós sejam momentos bem mais pessoais!
    Não custa dizer te adoro, não é?
    Saudades de você!
    Beijos!

  16. Mashallahhhh miss Abdulhamid!

    Estava procurando algo que referenciasse a Nakba e deparei com seu texto. Mabruk ya habibi! Muito bonito o que escreveu sobre a nossa terra. A musica me fez voltar também ao tempo do meu avô, do meu pai. A flauta no fundo me emocionou bastante. Lembrou as reunioes que fizemos por tanto tempo.

    E o mais interessante é que meu avo e meu pai estao ausentes nesse mundo agora. Isso é mais triste se olharmos do seu ponto de vista. Nunca parei para pensar que a melhor geraçao está morrendo e estamos ficando. E nao temos a mesma historia que eles, nem a mesma garra.

    Mas, quero ouvir falar historias de voce ainda. E quem sabe te conhecer um dia.

    Pelo seu perfil no It’s me voce deve ser uma moça bem interessante.

    Mabruk, inta el charming. 😉

    Long live Palestine!

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