partir.
janeiro 26th, 2012 § 3 Comentários
“Não dá mais pra voltar
E eu nem me despedi
Onde é que eu vim parar?
Por que eu fiquei tão longe?”
(Arnaldo Antunes)
Para Ana, era morrer partir. Era querer desistir, fugir, voltar pros braços, morrer no abraço.
Era vazio ir. Ficar à espera de não-sei-o-quê, engolir as lágrimas e fingir forças. Fingir gostar, fingir valorizar, fingir e fingir e fingir mais um pouco, morrer aos poucos e dar esmolas de seu esforço.
Voltar as costas e prosseguir era um suicídio. Como se o abismo estivesse ali atrás, como se a vida houvesse de aparecer, assim, de repente. Aquela vida cansada, aquela vida sem querer.
E partia. Com os olhos marejados, embriagada de dor e de saudades. a olhar os outros, a tentar ver aqueles outros embaçados bem diante de si. Via tantos outros felizes e tantos sorrindo aberto. Tantos plenos, tantos planos. E Ana fingindo ser livre. Ana se partia.
Que descontente ser inteligente. Abraçava o mundo com as pernas e saltava de peito e sorriso abertos, mas de coração cerrado. Que bonito ser inteligente – que bonito, minha gente! Viver matando leões, viver em prisões, em cárceres particulares, em sons despertadores.
Não dormia, não comia. A menina gemia – de dor – pela falta que faziam aqueles a quem deixou, pelo buraco do estilhaço, pelo câncer de viver só correndo atrás do que não era seu. Não era seu, era isso, e compreendeu que aqueles leões não podia matar. Que o mundo sorria por sorrir, mas quando chorava, o mundo se virava e lhe assistia partir.
Era preciso partir, mas nem sempre era preciso querer. Era se despedaçar e não ter cola para grudar, não ter forças para ir. Aos poucos, morria Ana partida em vários. Era morrer partir.


Caminhante, são teus rastros
o caminho, e nada mais;
caminhante, não há caminho,
faz-se caminho ao andar.
Ao andar faz-se o caminho,
e ao olhar-se para trás
vê-se a senda que jamais
se há-de voltar a pisar.
Caminhante, não há caminho,
somente sulcos no mar.
(Antônio Machado)
“Que descontente ser inteligente. Abraçava o mundo com as pernas e saltava de peito e sorriso abertos, mas de coração cerrado.”
Suas palavras arrepiam, moça! Aqui têm vida! Bom vê-la de volta com elas