Os gritos de Marília

setembro 16th, 2009 § 10 Comentários

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Marília desenha os traços dos que a traçam. Dos que colocam uma perna para ela cair. Quer silenciar a voz dos que falam. Dos que gritam que se cansaram. Marília anda e anda muito. Anda até não poder mais. Anda e escuta a música que lhe fala aos ouvidos. Um mistério isso é (…) o fato de que o passado fala a Marília. De que o passado é tão alto quanto aquela coisa que se desfazia de si. No passado. Ele é grande e irrepreensível. O passado adora trair – atrair; fazer cair, Marília. Ele abre os buracos. Ele se ri. Enquanto ela aguenta tamanha safadeza, tamanho escárnio doentio, ele canta. Canta aos ventos, grita e desafina. Desafina tal qual o seu pobre lamentar que se arranha sem entender, que se cansa buscando o porquê, que acentua, que pontua, que não diz o quê. Que busca o quê. Que fica a mercê dos gigantes que, nessa hora, a invadem o pensamento e a amedrontam. Assaltam a sua paz, a dizem menos. Dizem-na durezas, jogam em sua cara.

É claro que se rende, e talvez sempre será rendida. Mas, tenta buscar antes que se canse. Tenta não mostrar que cansou (…) eles se cansaram. Depois de se cansarem, irão odiar. Como todo mal precede um mal pior. É assim. Marília até pinta os lábios e a cara. Mas, não adianta. Não adiante, um a desmascara. Não adianta. Adiante, um a faz tropeçar. Segue assim, Marília, tentando falar, tentando engolir. Seguem assim, sem querer entender, só a proferir seus gritos contra ela. Só a dizer o tamanho que são (…) esses gigantes que a querem fazer cair.

Marília coça as orelhas e tenta fazer o avesso da trama. Tenta se esconder. E a água precisaria estar mais gelada, e a água não levaria embora; não demora e já está a enlouquecer tentando responder o que esta triste canção a pergunta; a insulta. Perturba a tristeza do vento, o peso que esse momento deixa sobre Marília. Até tentou fazer com que o vento voltasse para sua habitação, mas ele ama por demais aquilo que o distrai – ama a sua impaciência em abanar o seu pescoço.

É claro que não será assim sempre. Que um dia o vento se umidificará e o lamento não mais agridirá o seu coração. Que um dia o pranto se converterá e que as pernas dos que antes se prontificaram em ser o seu tropeço, um dia serão as suas pontes. Que um dia as adversidades, de tão contrárias, a guiarão para o que Marília chama de certo. De peculiar. Para aquilo que um dia Marília sonhou ter. Um tesouro.

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